"O mais depravado dos seres humanos é aquele que não têm objetivos."
- Ayn Rand

Depois que li A Nascente da Ayn Rand (meu livro favorito), vi que a obra-prima dela era A Revolta de Atlas. Foi considerado o 2º livro mais influente na cultura americana (atrás somente da Bíblia).
Li de algumas pessoas feras que é o melhor livro que leram, que mudou o rumo da vida delas, que o Brasil seria um país melhor se as pessoas lessem, etc, etc.
Quando procurei para comprar, em português só tinha a edição lançada na déc.80 com o título Quem é John Galt?. Dificíl de encontrar, estava custando uma média de 300 reais em sebos por aí. Não rola né.
Comprei a edição em inglês mesmo, mas vi que a editora Sextante iria lançar em setembro uma em português, com título original, 3 volumes, 1232 páginas. Assim que a primeira remessa chegou na livraria cultura, 30 min depois eu já tava com a minha cópia na mão.
Sobre o Livro
Na mitologia grega, Atlas foi o titã condenado por Zeus a carregar o mundo nas costas e também foi um dos reis de Atlântida, uma ilha mítica muita próspera e avançada para a época.
Esse livro se passa em um mundo fictício, onde os EUA é o último país capitalista. O governo resolve aplicar leis para reduzir a desigualdade, baixando decretos que obrigam as empresas mais lucrativas a dividirem seus lucros com as menores, assegurando que todas tenham participação no mercado.
A mediocridade, a burocracia, a corrupção e a manipulação, começam a tomar conta da sociedade. Os melhores empresários, artistas, pensadores e cientistas - cansados de carregar o mundo nas costas - começam a desaparecer sem pistas e o caos se instala.
Onde foram? O que irá acontecer? Quem é John Galt? hehehe =D
Esse livro tornou a Ayn Rand uma das mais influentes e controversas escritoras do nosso tempo.
Apresenta os princípios do Objetivismo, a filosofia ela criou: defesa da razão, do individualismo, do livre mercado e da liberdade de expressão, bem como os valores segundo os quais o homem deve viver – a racionalidade, a justiça, a independência, a integridade, a produtividade e o orgulho.
Foi publicado em 1957 e ainda está entre os mais vendidos nos EUA, chegando à 33ª posição no ranking da Amazon em janeiro/2009.
Do livro A Nascente eu gosto mais por motivos particulares. Mas A Revolta de Atlas é a obra-prima da Ayn Rand. É a indicação de livro que eu faria para a maioria das pessoas. A história é mais interessante e tem mais personagens marcantes do que A Nascente.
(Curti DEMAIS o personagem Francisco D'Anconia e o que ele fala sobre dinheiro e o amor - vou publicar em posts separados, em breve aqui no blog)
Ambos os livros são de uma leitura muito fácil e agradável, e tem por objetivo expor as idéias dela. A Nascente começa meio bombando, A Revolta de Atlas começa devagar e vai empolgando. O volume 2 e 3 eu fiquei vidrado.
A diferença nos temas é que A Nascente é sobre um espírito humano que não se rende, e em A Revolta de Atlas é sobre o fim do espírito humano no mundo e o seu renascimento.
O foco de A Nascente é mais o indíviduo. A Revolta de Atlas abrange a sociedade e expõe mais profundamente o pensamento dela sobre política, economia, religião, família, educação, amor, sexo, trabalho.
Nessa fase que vivemos de crise econômica mundial, eleições, países subdesenvolvidos crescendo, etc - putz, é um livro essencial para entender o mundo e o Brasil.
O livro defende coisas que considero possíveis como trabalho sem degradação, amor com admiração, emoção com razão, amizade com individualidade, felicidade sem culpa, vida com significado.
Defende a idéia de que o homem não é vítima, impotente, insignificante. A idéia de que o homem deve valorizar-se, deve comprometer-se com seus ideais e explorar seu potencial único, para sua própria paz e felicidade. Realizar-se, sem dominar nem se deixar dominar.
Esse livro é uma transfusão de ânimo para todos que se sentem asfixiados pela mediocridade e hipocrisia, indignados com a política, e que anseiam realizar seus sonhos e existir verdadeiramente.
Depois dessa leitura descobri que grande parte de mim é objetivista, mesmo antes de saber o que era isso.
Ainda não concordo com um mercado totalmente livre como ela prega, porque existe cartéis, dumping, inúmeras formas de abuso... que o governo deve regular, e há pesquisas - por exemplo, de doenças raras e até mesmo o programa espacial - que não são atraentes financeiramente e o governo é quem pode investir.
Governo deveria garantir um comércio justo, oportunidades mínimas para as pessoas participarem desse comércio (educação, microfinanciamentos), garantir segurança, atuar em catástrofes, investir em áreas que as empresas não podem.
Mas do jeito que é hoje, concordo com ela de que o governo é um obstáculo para o desenvolvimento, um parasita, garfando mais de 1/3 de tudo que é produzido no país e não dando retorno nenhum em infra-estrutura, segurança, nada. Quase tudo que presta nesse país, ou é privatizado ou tem uma administração profissional.
Quem trabalha direito que me desculpe, mas a primeira vez que vi funcionando (cof, cof) uma empresa estatal, fiquei em choque, era como olhar para uma UTI: salas cheias de gente meio morta. Não dá né. Bom, isso é assunto para outro post.
Continua na parte 2 de 3, em breve ;)
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Apenas do Volume 1 - Volumes 2 e 3 nos próximos posts
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Lembrou-se de um dia de verão, quando tinha 10 anos. Naquele dia, numa clara do bosque, sua mais querida companheira de infância lhe disse o que fariam quando crescessem. As palavras foram duras e brilhantes como os raios de sol. Ele ouviu admirado. Quando ela lhe perguntou o que desejaria fazer, ele respondeu de imediato: “O que for certo.” E acrescentou: “E preciso fazer alguma coisa que seja grande... Quero dizer, nós dois juntos.” E ela: “O quê, por exemplo?” Ele respondeu: “Não sei. É o que nós vamos descobrir.” [...] “Para quê?”, perguntou ela [...] E ele: “[...] devemos procurar alcançar o melhor de nós[...]”
Ouvia música. Era uma sinfonia triunfal. As notas fluíam, falavam de elevação espiritual e eram a própria elevação espiritual. Eram a essência e a forma do movimento ascensional, pareciam simbolizar todo ato e pensamento humanos associados com o princípio da ascensão. Era uma explosão sonora, emergindo de um esconderijo e se espalhando por toda parte. Tinha a força da liberdade e a tensão da firmeza. Varria todo o espaço e nada deixava atrás de si, senão a alegria do esforço que não encontra barreiras. Apenas um pequeno eco falava da sombra de onde havia escapado a música, mas falava com uma perplexidade alegre, ao descobrir que não havia nada feio ou doloroso, nem que era preciso que houvesse. Era a música de uma imensa libertação.
Através das secas frases que povoavam seus pensamentos, verificou que havia tempo para sentir algo: a dura e exultante sensação de estar agindo.
- Em que opinião você se baseia?
- Não peço opiniões.
- E como se decide?
- Pelo discernimento.
- Discernimento de quem?
- O meu.
Ele nunca sentia solidão. Exceto quando estava feliz.
Sacudiu a cabeça. Não era tempo para velhas dúvidas. Sentiu-se capaz de perdoar qualquer coisa, porque a felicidade é o maior agente de purificação que há. Tinha certeza de que todos os seres vivos queriam que ele estivesse bem, hoje. Sentia vontade de conversar com alguém, encarar o primeiro desconhecido que aparecesse, fica diante dele, desarmado e aberto [...] As pessoas certamente estariam tão sequiosas de alegria como ele sempre fora, pensou, sequiosas de um alívio momentâneo daquela carga cinzenta de sofrimento que parecia tão inexplicável e desnecessária. Rearden jamais entendera por que os homens haveriam de ser infelizes.
- Já jantou, Henry? - perguntou sua mãe. Havia um tom de censura e impaciência na voz dela, como se a fome dele fosse um insulto pessoal dirigido a ela.
- Sim... Não... Não estava com fome. [...]
- Você está trabalhando demais, Henry. - disse Philip. - Isso não faz bem.
Rearden riu.
- Eu gosto [...]
- Você precisa aprender a se divertir - dizia Philip. - Senão vai acabar ficando uma pessoa vazia e chata. Obcecada, você sabe. É preciso sair dessa sua casca e olhar para o mundo [...]
Lutando contra a irritação, Rearden procurou se convencer de que aquela era a maneira de Philip se mostrar solícito. Disse a si mesmo que seria injusto se irritar: estavam todos procurando mostrar seu interesse por ele, e ele querendo que ninguém se preocupasse com aquelas coisas. Não aquelas.
- Tive um ótimo dia hoje, Phil. - respondeu, sorrindo, não entendeu por que Phil não queria saber porque seu dia fora ótimo.
Queria que alguém se interessasse. Estava sendo difícil manter sua concentração.
O que querem de mim?, pensava Rearden. O que procuram? Nunca exigira nada deles. Eles sim, é que queriam prendê-lo, lhe faziam exigências - e essas exigências pareciam ter a forma de afeição, porém uma afeição que lhe parecia mais difícil de suportar do que qualquer ódio. Ele desprezava as afeições imotivadas como despreza os bens imerecidos. Eles diziam amá-lo por algum motivo e ignoravam todas as coisas pelas quais ele gostaria de ser amado [...] tudo o que dizia parecia magoá-los, independentemente de suas palavras ou atos, quase como se estivessem agredidos pelo simples fato dele existir.
Sentiu ressurgir uma espécie de revolta, uma necessidade de resgatar e, desafiadoramente, reafirmar sua visão de mundo, aqueles sentimentos que experimentara enquanto caminhava ainda há pouco de volta para casa e que agora pareciam de algum modo ameaçados.
[...] Olhou para sua família. Eram crianças infelizes, desorientadas, todos eles, incluindo sua mãe, e era tolice ficar ressentido com a fragilidade deles, que nascia de suas carências, não de qualquer malícia. Ele que devia se obrigar a entendê-los, uma vez que tinha tanto a dar, uma vez que eles jamais poderiam experimentar sua sensação de poder, alegre e sem limites.
Rearden nunca soubera o que seu irmão estava fazendo ou querendo fazer. Tinha encaminhado Philip para os estudos, mas ele nunca se decidira quanto a alguma aspiração específica. Havia algo errado, segundo os padrões de Rearden, com um homem que não procura um emprego lucrativo, mas ele não pretendia impor a Philip os seus padrões. Ele podia sustentar o irmão sem sequer sentir a despesa. Deixemos que ele leve uma vida boa - Rearden pensara durante anos -, que escolha sua carreira sem a sobrecarga da luta pela sobrevivência.
Era a alegria da admiração e do prazer ante a própria capacidade, manfestando-se ao mesmo tempo. Seu sentimento pela ferrovia era o mesmo: admiração pela habilidade técnica que a tornara possível, por meio da inteligência clara e racional de alguém, admiração com um sorriso secreto que dava a entender que ela se sabia capaz de um dia fazer melhor. Ela passeava pelo trilhos e pelos galpões de manutenção das locomotivas como uma humilde estudante, mas em sua humildade havia um toque de orgulho futuro, um orgulho a ser merecido.
“Você é insuportavelmente convencida” era uma das duas frases que ela ouvira com frequência durante a infância, embora ela nunca falasse de suas próprias capacidades. A outra frase era: “Você é egoísta.” Ela perguntava o que queriam dizer com aquilo, mas jamais obteve resposta.
O adversário que se via obrigada a enfrentar não merecia o desafio, nem merecia que ela fizesse qualquer esforço para vencê-lo. Não era uma capacidade superior que lhe desse a sensação de orgulho na luta: era a inépcia, cinzenta e macia, dócil como o algodão, que parecia fofa e sem forma, que não oferecia resistência a nada, não se opunha a ninguém, mas que constituía uma barreira em seu caminho.
A estátua mostrava um jovem alto, magro, com um rosto anguloso e firme, como se encarasse um desafio, encontrando alegria nele e na sua capacidade de enfrentá-lo. Tudo o que Dagny queria da vida se resumia em conseguir para o próprio rosto uma expressão como aquela.
Mas eu as venho observando há 20 anos e estou vendo a mudança. elas costumavam passar às pressas por aqui, e era bom vê-las, era a pressa de homens que sabiam aonde estavam indo e ansiavam por chegar lá. Mas, agora, as pessoas correm porque estão com medo. Não são dirigidas por nenhuma força, são movidas pelo medo. Não são dirigidas por nenhuma força, são movidas pelo medo. Não estão indo a parte alguma, estão fugindo. E não acho que saibam do que desejam fugir. Não se olham entre si. Estremecem quando são tocadas. Elas riem muito, mas é um riso feio. Não é de alegria, é como uma súplica.
Às vezes, como agora, quando sentia aquela súbita e estranha sensação de vazio, que não era vazio, mas silêncio, não desespero, mas imobilidade, como se nada dentro dela tivesse sido destruído, mas permanecesse parado, nessas vezes apenas, desejava um momento de alegria exterior, desejava sentir-se arrebatada como simples expectadora de algum trabalho ou visão que lhe sugerissem grandeza. Sem atuar, mas desfrutando; sem tomar a iniciativa, mas respondendo; sem criar, mas admirando. Preciso disso para continuar, pensou, porque a alegria é o combustível da gente.
Não havia melodia, harmonia, ritmo que contivesse tal guincho. Se a música era emoção e a emoção vinha do pensamento, então esse era o grito do caos, do irracional, da desesperança, da abdicação do homem de si mesmo.
Não fiz exigências a vocês quando não tinham condições de funcionar da maneira que eu precisava. Encontrei alguém que podia fazê-lo. Agora me forçam a negociar com vocês. Esperam me ditar os termos por não me oferecerem alternativas. Querem que baixe meus serviços ao nível de sua incompetência. Aviso que calcularam errado [...] Estou apenas dando um aviso. Os que quiserem tratar comigo hão de fazê-lo nos meus termos, não em outros. Não faço acordo com a incompetência [...] Vocês pretendem me sugar enquanto puderem até encontrar outra carcaça para sugar depois de acabarem comigo. Essa é a política da maior parte da humanidade hoje.
Dagny pensou subitamente que estava enganada a respeito da falta de emoções dele: por trás daquela frieza, Rearden tinha uma grande capacidade de sentir prazer. Verificou que sempre se sentia à vontade e bem-humorada em sua presença, e que ele também se sentia assim. Era o único homem que ela conhecia a quem podia falar sem tensão nem esforço. Ali estava uma mente respeitável, pensou.
A razão da minha família durar tanto é que a nenhum de nós jamais foi permitido se considerar um D’Anconia de nascença. Nós não nascemos, nós nos tornamos D’anconia.
Não havia empáfia em seus modos, nem idéia de comparação em sua consciência. Não tinha uma atitude de “Posso fazer melhor do que você”, mas simplesmente de “Posso fazê-lo”. Para ele, fazer era fazer superlativamente.
Duas coisas eram impossíveis para ele: ficar parado e se mover sem direção e finalidade.
“Vamos descobrir” era o incentivo que ele dava a Dagny e a Eddie em tudo o que empreendiam. Ou, então: “Vamos fazê-lo.” Eram suas únicas formas de divertimento.
Para Francisco, o perigo era tão somente uma oportunidade para alguma atuação brilhante: não havia batalhas que não ganhasse, inimigos que não derrotasse.
- Aquele menino é vulnerável. Ele tem uma capacidade excessiva de sentir felicidade. O que será que ele vai fazer com ela num mundo onde há tão poucas ocasiões de se ser feliz?
- Francisco, qual é o mais depravado dos seres humanos?
- Aquele que não têm objetivos.
Quero ver até onde você vai subir na Taggart Transcontinental. Por melhor que você seja, quero vê-la se esforçar ao máximo para ser ainda melhor. E, quando você tiver se esgotado para atingir um objetivo, quero vê-la começar a buscar outro.
- Olhe, eu nunca fui popular na escola e isso nunca me preocupou, mas agora eu descobri a razão. É uma coisa maluca. Não gostam de mim não porque eu faça as coisas malfeitas, mas porque eu faço tudo bem. Não gostam de mim porque sempre tirei as maiores notas da turma. Nem preciso estudar. Sempre tiro 10. Você acha que eu devia tentar tirar um 4 só para me tornar a garota mais popular da escola?
Franscisco parou, olhou para ela e lhe deu uma bofetada.
Às vezes, ao olhar de relance para o rosto de Dagny, a Sra. Taggart captava uma expressão que não conseguia definir com precisão: era muito mais do que alegria. Era um prazer de uma pureza tão virginal que lhe parecia uma anormalidade - era impossível que uma moça fosse tão insensível a ponto de não ter descoberto nenhuma tristeza na vida.
- Dagny - perguntou ela uma vez -, você nunca pensa em se divertir?
Dagny a olhou sem entender e respondeu:
- E o que a senhora acha que eu estou fazendo?
Voltava ao nascer do dia, dormia algumas horas e se levantava junto com o restante da família. Não tinha vontade de dormir. Ao se deitar, quando raiava o dia, sentia uma impaciência tensa, alegre, sem motivo, uma vontade de enfrentar aquele dia nascente.
Experimentava um prazer exultante - porque cada pontada em seu corpo terminava no corpo de Francisco [...] Tudo o que fazia consigo própria, fazia-o também com ele - era o que ele sentia; o que ela o obrigava a sentir.
Embora jovem demais para compreender o motivo, sabia que o desejo indiscriminado, sem seletividade, só era possível para aqueles que encaravam o sexo e a si próprios como coisas más.
Suspeitava que ele estava se esforçando demais, porque por vezes percebia, no seu olhar excessivamente intenso, os sinais de entusiasmo de quem está excedendo os limites de sua energia.
não acreditava em sofrimento. Encarou com uma indignação surpreendente o fato desagradável de sentir dor e se recusou a levá-lo a sério. O sofrimento era um acidente sem sentido e não fazia parte da vida tal como ela concebia. Nunca permitiria que a dor se tornasse importante.
Fosse qual fosse a tragédia que ocorrera a Francisco, por que ele optara pela fuga mais barata de todas, tão ignóbil quanto a embriguez? O menino que ela conhecera não poderia ter se transformado num covarde inútil.
Ele tinha a vitalidade de um ser humano saudável, coisa tão rara que ninguém podia identificá-la. Tinha o poder da certeza.
Não entendiam nada da arte de ganhar dinheiro. Não achavam necessário aprender. Achavam que o conhecimento dessas coisas era supérfluo, que saber julgá-las era irrelevante.
A capacidade de desfrutar de uma alegria pura, pensou, não pertence aos idiotas irresponsáveis. Uma paz de espírito inviolável não é atributo dos vagabundos. Saber rir daquele jeito exige a mais profunda e séria reflexão.
Dagny o achava estranhamente atraente - como se, pensou ela subitamente, a sensualidade, afinal, não fosse algo físico, e sim uma decorrência de uma sutil discriminação de espírito.
Ele não conseguia entender por que nenhum esforço até então jamais lhe parecera grande demais para sua capacidade e, no entanto, agora não tinha forças para enfiar uma abotoaduras de pérola preta na sua camisa branca engomada.
Ele jamais se poupava. Quando surgia um problema na siderúrgica, sua primeira preocupação era descobrir onde havia errado. Nunca procurava os erros dos outros, só os seus. Era de si próprio que exigia perfeição.
se tornara convicto de que era necessário pensar só na sanidade, não na loucura - que aquele que procurasse o certo venceria, porque a resposta certa sempre vencia; que aquele que fosse insensato, errado, monstruosamente injusto jamais poderia se sair bem, ter sucesso, e estava fadado ao fracasso. Lutar contra uma coisa como aquela lei lhe parecia ridículo e mesmo um pouco vergonhoso.
Sentiu que o dominava aquele cansaço mortal que nunca sentia no trabalho, a exaustão que parecia esperar por ele e atacá-lo sempre que se voltava para outros problemas. Sentia-se incapaz de qualquer desejo que não o de dormir.
Disse a si mesmo que tinha de ir á festa - que sua família tinha o direito de exigir isso dele -, que precisava aprender a gostar daquele tipo de prazer, por eles, não por si próprio.
- Então, o que o senhor quer é... ganhar minha confiança?
- Não. Não gosto de gente que fala ou pensa em termos de ganhar a confiança dos outros. Quem age honestamente não precisa de confiança prévia dos outros, apenas de sua percepção racional. Quem quer ter esse tipo de carta branca tem intenções desonestas, quer o admita, quer não.
Você acha que essas pessoas estão se divertindo? Estão apenas se esforçando para ser mais insensatas e vazias do que de costume. Sentir-se leves e sem importância... Sabe, acho que é só quem se sente imensamente importante que pode realmente sentir-se leve.
Hank, porque é tão difícil achar gente competente para qualquer trabalho hoje em dia?
Era a grande clareza que vem após a emoção, após a recompensa de sentir tudo o que é possível sentir. O que ela e ele haviam realizado, e o momento em que os dois haviam reconhecido o fato, e se apropriado dele juntos, pensou ela, era a maior intimidade que duas pessoas podiam compartilhar.
- Não. Esqueça. A senhora está só se enganando.
- A respeito de quê?
- De achar que qualquer coisa vale alguma coisa. É tudo pó, moça, tudo. Pó e sangue. É só não acreditar nesses sonhos que enfiaram na sua cabeça que a senhora não sofre.
- Que sonhos?
- [...] A pessoa passa a vida procurando beleza, grandeza, alguma realização sublime - prosseguiu ele. - E acha o quê?
Era inútil discutir, pensou ela, e se perguntou como é que havia pessoas que nem refutavam uma argumentação nem a aceitavam.
- Srta. Taggart - disse ele, num tom de insistência suave e amargurada -, sou mais velho que a senhorita. Acredite no que eu digo: não existe outra manera de viver no mundo. Os homens não estão preparados para ouvir a voz da razão. É impossível convencê-los com argumentos racionais. A mente é impotente contra eles.
O pensamento, Rearden disse a si próprio, é uma arma que se usa para agir. [...]
Via pela primeira vez que antes jamais experimentara medo porque, qualquer que fosse o desastre, ele sempre pudera agir, e esse era o remédio para todos os males [...] não a certeza da vitória, coisa que ninguém jamais tem, mas apenas a possibilidade de agir, que é a única coisa necessária. Agora estava considerando, de modo impessoal, pela primeira vez, a mais terrível das perspectivas: a de ser destruído com as mãos atadas às costas.
Então se viu aos 18 anos. Viu a tensão de seu rosto, a velocidade de seu passo, o entusiasmo enebriante do corpo, bêbado da energia de noites passadas em claro, a cabeça orgulhosa erguida, os olhos limpos, firmes [...] que se impelia sem piedade na direção daquilo que queria. E viu como Paul Larkin deveria ser naquela época - um rapaz com rosto de bebê envelhecido, sorrindo de modo amável, sem prazer, pedindo que o poupassem, implorando ao universo que lhe dessem uma oportunidade.
Não existem fatos objetivos. Toda reportagem não passa da opinião de alguém. Portanto, é inutil escrever sobre fatos objetivos.
Se o senhor acha que preciso dos seus associados mais do que eles precisam de mim, faça o que o senhor achar conveniente. Se o senhor sabe que posso conduzir uma locomotiva, mas eles não podem construir uma ferrovia, escolha a alternativa apropriada.
lhe parecia perfeitamente natural que todos estivessem ali e quisessem assistir, porque a possibilidade de presenciar a realização de um objetivo era a maior dádiva que um ser humano pode oferecer a outro.
Ela não sentia raiva de ninguém no mundo. As coisas que fora obrigada a suportar agora haviam desaparecido na bruma, como uma dor que ainda existe porém não tem mais o poder de incomodar.
Os repórteres, que desprezavam a sua própria profissão, não sabiam por que naquele dia estavam tendo prazer em trabalhar. Um deles, um jovem tristemente famoso em seu ofício, com o olhar cínico de um homem com o dobro de sua idade, disse de repente:
- Eu sei o que eu queria ser: um repórter que cobre notícias de verdade!
Ela sorriu, percebendo o motivo: era a segurança de se saber pioneira, vendo tudo e compreendendo tudo, não a sensação cega de estar sendo arrastada para o desconhecido por alguma força misteriosa a sua frente. Era a maior sensação da existência: não confiar, mas saber.
O que quer que eu seja, pensou ela, seja qual for o meu amor-próprio, o orgulho de minha coragem, de meu trabalho, de minha mente e de minha liberdade, é isso que lhe ofereço para o prazer do seu corpo, é isso que eu quero que você use. E o fato de você querer usá-lo é a maior recompensa que posso receber.
Através de todas as etapas por que haviam passado, etapas de uma trajetória assumida na coragem de uma única coerência: o amor à vida - assumida na consciência de que nada é dadom e que é necessário que cada um construa seu próprio desejo, cada forma de sua concretização -, através das etapas de fundir metal, fazer trilhos e motores, haviam sido impelidos pelo poder da idéia de que o homem refaz o mundo para sua própria satisfação, de que o espírito do homem dá significado à matéria insensível moldando-a de modo a adaptá-la ao objetivo escolhido. Aquela trajetória os conduziu ao momento em que, em resposta aos mais elevados valores individuais, numa admiração inexprimível por qualquer outra forma de homenagem, o espírito faz do corpo o tributo, transformando-o - como uma prova, uma recompensa - em uma única sensação de prazer, um prazer de tal intensidade que nenhuma outra sanção à existência se faz necessária.
Para mim, era uma questão de honra jamais precisar de ninguém. Mas eu preciso de você. [...] Jamais deixei de cumprir a minha palavra [...] Jamais pedi piedade a ninguém. Escolhi essa alternativa e aceito todas as consequências.
A pior coisa que as pessoas fazem não são os insultos, e sim os elogios. Achei insuportável os elogios que me fizeram hoje, principalmente quando diziam que todo mundo precisava de mim [...] Não suporto gente que precisa de mim.
- Moça, já vi muita coisa nesta vida - disse ele, bem-humorado. - Marido e mulher não se olham com olhar de quem está pensando em cama. Neste mundo, ou a pessoa é virtuosa ou ela se diverte.
Nunca se irrite com um homem por ele ter dito a verdade.
Não havia nenhuma medida que ela pudesse tomar contra homens de pensamento indefinido, objetivos não declarados, moralidade desconhecida. Não havia nada que ela pudesse lhes dizer, nada que fosse ouvido e respondido. Quais eram as armas, perguntou a si própria, num mundo em que a razão não era mais uma arma? Naquele mundo ela não podia entrar.
Ela não conseguia obedecer à regra que ordenava: diminua-se, limite-se, não faça o melhor que você pode.
“Acho, sim”, disse Midas Mulligan quando lhe perguntaram se achava que existia alguém pior do que o homem cujo coração não sente qualquer sentimento de piedade. “É o homem que usa a piedade que sentem por ele como uma arma”.
Dagny estava certa de que ele já havia percebido [...] seu ar de mulher que não perde tempo.
Pela própria essência e natureza da existência, as contradições não podem existir [...] verifique suas premissas.
Ora, mesmo que ela estivesse esmagada sob as ruínas de um prédio, ou dilacerada por uma explosão de um bombardeio aéreo, se ainda estivesse viva, saberia que a obrigação fundamental de um ser humano é agir, independentemente de seus sentimentos.
Ouvia música. Era uma sinfonia triunfal. As notas fluíam, falavam de elevação espiritual e eram a própria elevação espiritual. Eram a essência e a forma do movimento ascensional, pareciam simbolizar todo ato e pensamento humanos associados com o princípio da ascensão. Era uma explosão sonora, emergindo de um esconderijo e se espalhando por toda parte. Tinha a força da liberdade e a tensão da firmeza. Varria todo o espaço e nada deixava atrás de si, senão a alegria do esforço que não encontra barreiras. Apenas um pequeno eco falava da sombra de onde havia escapado a música, mas falava com uma perplexidade alegre, ao descobrir que não havia nada feio ou doloroso, nem que era preciso que houvesse. Era a música de uma imensa libertação.
Através das secas frases que povoavam seus pensamentos, verificou que havia tempo para sentir algo: a dura e exultante sensação de estar agindo.
- Em que opinião você se baseia?
- Não peço opiniões.
- E como se decide?
- Pelo discernimento.
- Discernimento de quem?
- O meu.
Ele nunca sentia solidão. Exceto quando estava feliz.
Sacudiu a cabeça. Não era tempo para velhas dúvidas. Sentiu-se capaz de perdoar qualquer coisa, porque a felicidade é o maior agente de purificação que há. Tinha certeza de que todos os seres vivos queriam que ele estivesse bem, hoje. Sentia vontade de conversar com alguém, encarar o primeiro desconhecido que aparecesse, fica diante dele, desarmado e aberto [...] As pessoas certamente estariam tão sequiosas de alegria como ele sempre fora, pensou, sequiosas de um alívio momentâneo daquela carga cinzenta de sofrimento que parecia tão inexplicável e desnecessária. Rearden jamais entendera por que os homens haveriam de ser infelizes.
- Já jantou, Henry? - perguntou sua mãe. Havia um tom de censura e impaciência na voz dela, como se a fome dele fosse um insulto pessoal dirigido a ela.
- Sim... Não... Não estava com fome. [...]
- Você está trabalhando demais, Henry. - disse Philip. - Isso não faz bem.
Rearden riu.
- Eu gosto [...]
- Você precisa aprender a se divertir - dizia Philip. - Senão vai acabar ficando uma pessoa vazia e chata. Obcecada, você sabe. É preciso sair dessa sua casca e olhar para o mundo [...]
Lutando contra a irritação, Rearden procurou se convencer de que aquela era a maneira de Philip se mostrar solícito. Disse a si mesmo que seria injusto se irritar: estavam todos procurando mostrar seu interesse por ele, e ele querendo que ninguém se preocupasse com aquelas coisas. Não aquelas.
- Tive um ótimo dia hoje, Phil. - respondeu, sorrindo, não entendeu por que Phil não queria saber porque seu dia fora ótimo.
Queria que alguém se interessasse. Estava sendo difícil manter sua concentração.
O que querem de mim?, pensava Rearden. O que procuram? Nunca exigira nada deles. Eles sim, é que queriam prendê-lo, lhe faziam exigências - e essas exigências pareciam ter a forma de afeição, porém uma afeição que lhe parecia mais difícil de suportar do que qualquer ódio. Ele desprezava as afeições imotivadas como despreza os bens imerecidos. Eles diziam amá-lo por algum motivo e ignoravam todas as coisas pelas quais ele gostaria de ser amado [...] tudo o que dizia parecia magoá-los, independentemente de suas palavras ou atos, quase como se estivessem agredidos pelo simples fato dele existir.
Sentiu ressurgir uma espécie de revolta, uma necessidade de resgatar e, desafiadoramente, reafirmar sua visão de mundo, aqueles sentimentos que experimentara enquanto caminhava ainda há pouco de volta para casa e que agora pareciam de algum modo ameaçados.
[...] Olhou para sua família. Eram crianças infelizes, desorientadas, todos eles, incluindo sua mãe, e era tolice ficar ressentido com a fragilidade deles, que nascia de suas carências, não de qualquer malícia. Ele que devia se obrigar a entendê-los, uma vez que tinha tanto a dar, uma vez que eles jamais poderiam experimentar sua sensação de poder, alegre e sem limites.
Rearden nunca soubera o que seu irmão estava fazendo ou querendo fazer. Tinha encaminhado Philip para os estudos, mas ele nunca se decidira quanto a alguma aspiração específica. Havia algo errado, segundo os padrões de Rearden, com um homem que não procura um emprego lucrativo, mas ele não pretendia impor a Philip os seus padrões. Ele podia sustentar o irmão sem sequer sentir a despesa. Deixemos que ele leve uma vida boa - Rearden pensara durante anos -, que escolha sua carreira sem a sobrecarga da luta pela sobrevivência.
Era a alegria da admiração e do prazer ante a própria capacidade, manfestando-se ao mesmo tempo. Seu sentimento pela ferrovia era o mesmo: admiração pela habilidade técnica que a tornara possível, por meio da inteligência clara e racional de alguém, admiração com um sorriso secreto que dava a entender que ela se sabia capaz de um dia fazer melhor. Ela passeava pelo trilhos e pelos galpões de manutenção das locomotivas como uma humilde estudante, mas em sua humildade havia um toque de orgulho futuro, um orgulho a ser merecido.
“Você é insuportavelmente convencida” era uma das duas frases que ela ouvira com frequência durante a infância, embora ela nunca falasse de suas próprias capacidades. A outra frase era: “Você é egoísta.” Ela perguntava o que queriam dizer com aquilo, mas jamais obteve resposta.
O adversário que se via obrigada a enfrentar não merecia o desafio, nem merecia que ela fizesse qualquer esforço para vencê-lo. Não era uma capacidade superior que lhe desse a sensação de orgulho na luta: era a inépcia, cinzenta e macia, dócil como o algodão, que parecia fofa e sem forma, que não oferecia resistência a nada, não se opunha a ninguém, mas que constituía uma barreira em seu caminho.
A estátua mostrava um jovem alto, magro, com um rosto anguloso e firme, como se encarasse um desafio, encontrando alegria nele e na sua capacidade de enfrentá-lo. Tudo o que Dagny queria da vida se resumia em conseguir para o próprio rosto uma expressão como aquela.
Mas eu as venho observando há 20 anos e estou vendo a mudança. elas costumavam passar às pressas por aqui, e era bom vê-las, era a pressa de homens que sabiam aonde estavam indo e ansiavam por chegar lá. Mas, agora, as pessoas correm porque estão com medo. Não são dirigidas por nenhuma força, são movidas pelo medo. Não são dirigidas por nenhuma força, são movidas pelo medo. Não estão indo a parte alguma, estão fugindo. E não acho que saibam do que desejam fugir. Não se olham entre si. Estremecem quando são tocadas. Elas riem muito, mas é um riso feio. Não é de alegria, é como uma súplica.
Às vezes, como agora, quando sentia aquela súbita e estranha sensação de vazio, que não era vazio, mas silêncio, não desespero, mas imobilidade, como se nada dentro dela tivesse sido destruído, mas permanecesse parado, nessas vezes apenas, desejava um momento de alegria exterior, desejava sentir-se arrebatada como simples expectadora de algum trabalho ou visão que lhe sugerissem grandeza. Sem atuar, mas desfrutando; sem tomar a iniciativa, mas respondendo; sem criar, mas admirando. Preciso disso para continuar, pensou, porque a alegria é o combustível da gente.
Não havia melodia, harmonia, ritmo que contivesse tal guincho. Se a música era emoção e a emoção vinha do pensamento, então esse era o grito do caos, do irracional, da desesperança, da abdicação do homem de si mesmo.
Não fiz exigências a vocês quando não tinham condições de funcionar da maneira que eu precisava. Encontrei alguém que podia fazê-lo. Agora me forçam a negociar com vocês. Esperam me ditar os termos por não me oferecerem alternativas. Querem que baixe meus serviços ao nível de sua incompetência. Aviso que calcularam errado [...] Estou apenas dando um aviso. Os que quiserem tratar comigo hão de fazê-lo nos meus termos, não em outros. Não faço acordo com a incompetência [...] Vocês pretendem me sugar enquanto puderem até encontrar outra carcaça para sugar depois de acabarem comigo. Essa é a política da maior parte da humanidade hoje.
Dagny pensou subitamente que estava enganada a respeito da falta de emoções dele: por trás daquela frieza, Rearden tinha uma grande capacidade de sentir prazer. Verificou que sempre se sentia à vontade e bem-humorada em sua presença, e que ele também se sentia assim. Era o único homem que ela conhecia a quem podia falar sem tensão nem esforço. Ali estava uma mente respeitável, pensou.
A razão da minha família durar tanto é que a nenhum de nós jamais foi permitido se considerar um D’Anconia de nascença. Nós não nascemos, nós nos tornamos D’anconia.
Não havia empáfia em seus modos, nem idéia de comparação em sua consciência. Não tinha uma atitude de “Posso fazer melhor do que você”, mas simplesmente de “Posso fazê-lo”. Para ele, fazer era fazer superlativamente.
Duas coisas eram impossíveis para ele: ficar parado e se mover sem direção e finalidade.
“Vamos descobrir” era o incentivo que ele dava a Dagny e a Eddie em tudo o que empreendiam. Ou, então: “Vamos fazê-lo.” Eram suas únicas formas de divertimento.
Para Francisco, o perigo era tão somente uma oportunidade para alguma atuação brilhante: não havia batalhas que não ganhasse, inimigos que não derrotasse.
- Aquele menino é vulnerável. Ele tem uma capacidade excessiva de sentir felicidade. O que será que ele vai fazer com ela num mundo onde há tão poucas ocasiões de se ser feliz?
- Francisco, qual é o mais depravado dos seres humanos?
- Aquele que não têm objetivos.
Quero ver até onde você vai subir na Taggart Transcontinental. Por melhor que você seja, quero vê-la se esforçar ao máximo para ser ainda melhor. E, quando você tiver se esgotado para atingir um objetivo, quero vê-la começar a buscar outro.
- Olhe, eu nunca fui popular na escola e isso nunca me preocupou, mas agora eu descobri a razão. É uma coisa maluca. Não gostam de mim não porque eu faça as coisas malfeitas, mas porque eu faço tudo bem. Não gostam de mim porque sempre tirei as maiores notas da turma. Nem preciso estudar. Sempre tiro 10. Você acha que eu devia tentar tirar um 4 só para me tornar a garota mais popular da escola?
Franscisco parou, olhou para ela e lhe deu uma bofetada.
Às vezes, ao olhar de relance para o rosto de Dagny, a Sra. Taggart captava uma expressão que não conseguia definir com precisão: era muito mais do que alegria. Era um prazer de uma pureza tão virginal que lhe parecia uma anormalidade - era impossível que uma moça fosse tão insensível a ponto de não ter descoberto nenhuma tristeza na vida.
- Dagny - perguntou ela uma vez -, você nunca pensa em se divertir?
Dagny a olhou sem entender e respondeu:
- E o que a senhora acha que eu estou fazendo?
Voltava ao nascer do dia, dormia algumas horas e se levantava junto com o restante da família. Não tinha vontade de dormir. Ao se deitar, quando raiava o dia, sentia uma impaciência tensa, alegre, sem motivo, uma vontade de enfrentar aquele dia nascente.
Experimentava um prazer exultante - porque cada pontada em seu corpo terminava no corpo de Francisco [...] Tudo o que fazia consigo própria, fazia-o também com ele - era o que ele sentia; o que ela o obrigava a sentir.
Embora jovem demais para compreender o motivo, sabia que o desejo indiscriminado, sem seletividade, só era possível para aqueles que encaravam o sexo e a si próprios como coisas más.
Suspeitava que ele estava se esforçando demais, porque por vezes percebia, no seu olhar excessivamente intenso, os sinais de entusiasmo de quem está excedendo os limites de sua energia.
não acreditava em sofrimento. Encarou com uma indignação surpreendente o fato desagradável de sentir dor e se recusou a levá-lo a sério. O sofrimento era um acidente sem sentido e não fazia parte da vida tal como ela concebia. Nunca permitiria que a dor se tornasse importante.
Fosse qual fosse a tragédia que ocorrera a Francisco, por que ele optara pela fuga mais barata de todas, tão ignóbil quanto a embriguez? O menino que ela conhecera não poderia ter se transformado num covarde inútil.
Ele tinha a vitalidade de um ser humano saudável, coisa tão rara que ninguém podia identificá-la. Tinha o poder da certeza.
Não entendiam nada da arte de ganhar dinheiro. Não achavam necessário aprender. Achavam que o conhecimento dessas coisas era supérfluo, que saber julgá-las era irrelevante.
A capacidade de desfrutar de uma alegria pura, pensou, não pertence aos idiotas irresponsáveis. Uma paz de espírito inviolável não é atributo dos vagabundos. Saber rir daquele jeito exige a mais profunda e séria reflexão.
Dagny o achava estranhamente atraente - como se, pensou ela subitamente, a sensualidade, afinal, não fosse algo físico, e sim uma decorrência de uma sutil discriminação de espírito.
Ele não conseguia entender por que nenhum esforço até então jamais lhe parecera grande demais para sua capacidade e, no entanto, agora não tinha forças para enfiar uma abotoaduras de pérola preta na sua camisa branca engomada.
Ele jamais se poupava. Quando surgia um problema na siderúrgica, sua primeira preocupação era descobrir onde havia errado. Nunca procurava os erros dos outros, só os seus. Era de si próprio que exigia perfeição.
se tornara convicto de que era necessário pensar só na sanidade, não na loucura - que aquele que procurasse o certo venceria, porque a resposta certa sempre vencia; que aquele que fosse insensato, errado, monstruosamente injusto jamais poderia se sair bem, ter sucesso, e estava fadado ao fracasso. Lutar contra uma coisa como aquela lei lhe parecia ridículo e mesmo um pouco vergonhoso.
Sentiu que o dominava aquele cansaço mortal que nunca sentia no trabalho, a exaustão que parecia esperar por ele e atacá-lo sempre que se voltava para outros problemas. Sentia-se incapaz de qualquer desejo que não o de dormir.
Disse a si mesmo que tinha de ir á festa - que sua família tinha o direito de exigir isso dele -, que precisava aprender a gostar daquele tipo de prazer, por eles, não por si próprio.
- Então, o que o senhor quer é... ganhar minha confiança?
- Não. Não gosto de gente que fala ou pensa em termos de ganhar a confiança dos outros. Quem age honestamente não precisa de confiança prévia dos outros, apenas de sua percepção racional. Quem quer ter esse tipo de carta branca tem intenções desonestas, quer o admita, quer não.
Você acha que essas pessoas estão se divertindo? Estão apenas se esforçando para ser mais insensatas e vazias do que de costume. Sentir-se leves e sem importância... Sabe, acho que é só quem se sente imensamente importante que pode realmente sentir-se leve.
Hank, porque é tão difícil achar gente competente para qualquer trabalho hoje em dia?
Era a grande clareza que vem após a emoção, após a recompensa de sentir tudo o que é possível sentir. O que ela e ele haviam realizado, e o momento em que os dois haviam reconhecido o fato, e se apropriado dele juntos, pensou ela, era a maior intimidade que duas pessoas podiam compartilhar.
- Não. Esqueça. A senhora está só se enganando.
- A respeito de quê?
- De achar que qualquer coisa vale alguma coisa. É tudo pó, moça, tudo. Pó e sangue. É só não acreditar nesses sonhos que enfiaram na sua cabeça que a senhora não sofre.
- Que sonhos?
- [...] A pessoa passa a vida procurando beleza, grandeza, alguma realização sublime - prosseguiu ele. - E acha o quê?
Era inútil discutir, pensou ela, e se perguntou como é que havia pessoas que nem refutavam uma argumentação nem a aceitavam.
- Srta. Taggart - disse ele, num tom de insistência suave e amargurada -, sou mais velho que a senhorita. Acredite no que eu digo: não existe outra manera de viver no mundo. Os homens não estão preparados para ouvir a voz da razão. É impossível convencê-los com argumentos racionais. A mente é impotente contra eles.
O pensamento, Rearden disse a si próprio, é uma arma que se usa para agir. [...]
Via pela primeira vez que antes jamais experimentara medo porque, qualquer que fosse o desastre, ele sempre pudera agir, e esse era o remédio para todos os males [...] não a certeza da vitória, coisa que ninguém jamais tem, mas apenas a possibilidade de agir, que é a única coisa necessária. Agora estava considerando, de modo impessoal, pela primeira vez, a mais terrível das perspectivas: a de ser destruído com as mãos atadas às costas.
Então se viu aos 18 anos. Viu a tensão de seu rosto, a velocidade de seu passo, o entusiasmo enebriante do corpo, bêbado da energia de noites passadas em claro, a cabeça orgulhosa erguida, os olhos limpos, firmes [...] que se impelia sem piedade na direção daquilo que queria. E viu como Paul Larkin deveria ser naquela época - um rapaz com rosto de bebê envelhecido, sorrindo de modo amável, sem prazer, pedindo que o poupassem, implorando ao universo que lhe dessem uma oportunidade.
Não existem fatos objetivos. Toda reportagem não passa da opinião de alguém. Portanto, é inutil escrever sobre fatos objetivos.
Se o senhor acha que preciso dos seus associados mais do que eles precisam de mim, faça o que o senhor achar conveniente. Se o senhor sabe que posso conduzir uma locomotiva, mas eles não podem construir uma ferrovia, escolha a alternativa apropriada.
lhe parecia perfeitamente natural que todos estivessem ali e quisessem assistir, porque a possibilidade de presenciar a realização de um objetivo era a maior dádiva que um ser humano pode oferecer a outro.
Ela não sentia raiva de ninguém no mundo. As coisas que fora obrigada a suportar agora haviam desaparecido na bruma, como uma dor que ainda existe porém não tem mais o poder de incomodar.
Os repórteres, que desprezavam a sua própria profissão, não sabiam por que naquele dia estavam tendo prazer em trabalhar. Um deles, um jovem tristemente famoso em seu ofício, com o olhar cínico de um homem com o dobro de sua idade, disse de repente:
- Eu sei o que eu queria ser: um repórter que cobre notícias de verdade!
Ela sorriu, percebendo o motivo: era a segurança de se saber pioneira, vendo tudo e compreendendo tudo, não a sensação cega de estar sendo arrastada para o desconhecido por alguma força misteriosa a sua frente. Era a maior sensação da existência: não confiar, mas saber.
O que quer que eu seja, pensou ela, seja qual for o meu amor-próprio, o orgulho de minha coragem, de meu trabalho, de minha mente e de minha liberdade, é isso que lhe ofereço para o prazer do seu corpo, é isso que eu quero que você use. E o fato de você querer usá-lo é a maior recompensa que posso receber.
Através de todas as etapas por que haviam passado, etapas de uma trajetória assumida na coragem de uma única coerência: o amor à vida - assumida na consciência de que nada é dadom e que é necessário que cada um construa seu próprio desejo, cada forma de sua concretização -, através das etapas de fundir metal, fazer trilhos e motores, haviam sido impelidos pelo poder da idéia de que o homem refaz o mundo para sua própria satisfação, de que o espírito do homem dá significado à matéria insensível moldando-a de modo a adaptá-la ao objetivo escolhido. Aquela trajetória os conduziu ao momento em que, em resposta aos mais elevados valores individuais, numa admiração inexprimível por qualquer outra forma de homenagem, o espírito faz do corpo o tributo, transformando-o - como uma prova, uma recompensa - em uma única sensação de prazer, um prazer de tal intensidade que nenhuma outra sanção à existência se faz necessária.
Para mim, era uma questão de honra jamais precisar de ninguém. Mas eu preciso de você. [...] Jamais deixei de cumprir a minha palavra [...] Jamais pedi piedade a ninguém. Escolhi essa alternativa e aceito todas as consequências.
A pior coisa que as pessoas fazem não são os insultos, e sim os elogios. Achei insuportável os elogios que me fizeram hoje, principalmente quando diziam que todo mundo precisava de mim [...] Não suporto gente que precisa de mim.
- Moça, já vi muita coisa nesta vida - disse ele, bem-humorado. - Marido e mulher não se olham com olhar de quem está pensando em cama. Neste mundo, ou a pessoa é virtuosa ou ela se diverte.
Nunca se irrite com um homem por ele ter dito a verdade.
Não havia nenhuma medida que ela pudesse tomar contra homens de pensamento indefinido, objetivos não declarados, moralidade desconhecida. Não havia nada que ela pudesse lhes dizer, nada que fosse ouvido e respondido. Quais eram as armas, perguntou a si própria, num mundo em que a razão não era mais uma arma? Naquele mundo ela não podia entrar.
Ela não conseguia obedecer à regra que ordenava: diminua-se, limite-se, não faça o melhor que você pode.
“Acho, sim”, disse Midas Mulligan quando lhe perguntaram se achava que existia alguém pior do que o homem cujo coração não sente qualquer sentimento de piedade. “É o homem que usa a piedade que sentem por ele como uma arma”.
Dagny estava certa de que ele já havia percebido [...] seu ar de mulher que não perde tempo.
Pela própria essência e natureza da existência, as contradições não podem existir [...] verifique suas premissas.
Ora, mesmo que ela estivesse esmagada sob as ruínas de um prédio, ou dilacerada por uma explosão de um bombardeio aéreo, se ainda estivesse viva, saberia que a obrigação fundamental de um ser humano é agir, independentemente de seus sentimentos.
Link para a parte 2























13 comentários:
Estou na metade do A Nascente e estou achando fantástico, principalmente a construção rica dos personagens. Se você está dizendo que A Revolta de Atlas tem ainda personagens mais marcantes imagino o quão bom deve ser esse. Só não é o próximo na lista porque já tem outro na fila. Grande abraço!
Plá
Olá Nicholas, cara estou lendo A Revolta de Atlas. Estou "vidrado" não consigo largar o livro. É realmente incrível! Quando terminar de ler deixo um comentário mais bacana no seu Blog dizendo o que achei. Abs
O personagem Hank Rearden é ótimo tbm!
Flw
Bom dia querido! Acordei hoje cedo já na expectativa de ler seu post sobre A Revolta de Atlas e estou surpresa. Não só adorei como pretendo comprar o livro, darei preferência a este porque é a comunhão de dois contextos fabulosos (conjectura contemporânea da reação humana e analogia mitológica). A Nascente eu vou deixar para ler depois deste. Como sempre: ressalto o seu primor em escrever sobre assuntos controversos e complexos de forma tão bacana e casual (estou aprendendo contigo)e me refiro a complexo porque convenhamos, hoje em dia me decepciono muito com o ritmo vicioso de leitura corrompida, nem vou citar a saga dos morceguinhos emos a procura da bela entontecida pq me dá desânimo. Adorei o deu post e aguardo ansiosa os seguintes!
Oi, Nicholas! Tudo bem? "Descobri" seu blog procurando exatamente por este livro no Google. Também estou lendo, mas estou bem no comecinho...
Estou gostando bastante, não consigo parar de ler!
Vou acompanhar os próximos posts!
Nicholas, muito bom saborear, perder tempo que é ganhar tempo, rendido num post que esmiuça grandiosidade e conduz o ser na tomada de atitude: mudança. Percebe-se o quanto o mundo está em caos por dentro, e que é por dentro o podre; a mente necessita passar por uma grande reforma.
Os post's na linha do renascimento, como um elemento tão vivo e preciso de ruptura, no plano cultural, com a estrutura em reestruturação. De um sujeito moderno preocupado em compreender a origem, adentrar na voz da raiz e com foz consciente de que chegara a conclusões e delas se abrira portas improváveis, e no caminho pleno de que há diferentes formas de manuseio.
Vem à memória, durante a leitura, atrelado, o papel dos renascentistas que rejeitaram os padrões definidos pela Igreja Católica, e daí surgiu o 'humanismo', uma vertente do pensamento que leva a uma maior reflexão do papel da igreja e das verdades que pregava e o teocentrismo medieval substituído pelo antropocentrismo. Pode-se dizer um período marcado por uma forma de pensar, pela ascensão da classe burguesa, desenvolvimento nas relações de produção de capital e trabalho e pela formação dos Estados Absolutistas.
A idade moderna marcada pela Reforma Protestante, o movimento da Reforma que resultou na fragmentação da unidade cristã e na origem do protestantismo, em que um dos motivos principais da separação foi à venda de indulgências por parte da Igreja, que associado à revolta religiosa, o monge católico Martinho Lutero, traduziu a Bíblia para uma língua vulgar, no enfoque de estender a benção da educação às pessoas comuns. "Lutero não apenas deu vida à teologia cristã ocidental, como a revolucionou". Nesta perspectiva, os pensamentos religiosos por tornarem-se mais livres, repercutindo sobre o questionamento intelectual, e houve uma maior reflexão pessoal. Com ênfase na implantação da escola primária para todos, que se defendia a educação universal e pública, a qual solicitava às autoridades oficiais no assumir essa tarefa, por considerá-la competência do Estado.
Priscila Cáliga
Cara, quando vi esse livro na prateleira da livraria, pensei de cara em vc! Mal posso esperar pra começar a ler!
Assim q terminar o tcc, com tempo, irei com certeza lê-lo. rsrs
Abraço
A revolta de atlas exprime-se ao primor narrativo apto à solida componência filosofica. Acabei de ler a obra e considero-a elementar ao quociente dos esforços intelectuais da era moderna. Uma analise crìtica do meio capitalista em sua matriz, da ocorrencia parasitaria que dirige-se à criatividade ( metaforicamente representada pela figura mitologica de atlas ) a qual, ve-se obrigada a sustentar o sistema civilizacionàrio do contexto produtivo e social resgardado ao dominio de entidades parasitárias. A narrativa transpoe-se a revelar a luta de um homem, tornado mito e expressão interrogativa de uma sociedade moribunda que, em detrimento de seus esforços progride a auto destruição; lentamente recorrente à seu próprio método de produtividade imperialista. Personagens representativos à faceta cientifica, comerical, industrial e intelectual renunciam a riqueza alheia empreendida sob o simulacro do parasita e juntam-se a causa de John Galt, o homem que almeja parar o motor do mundo e empreender o alvorecer da razão ante as ruinas da falência regida por saqueadores.
Li esse livro assim que foi relançado, em outubro de 2010, auge das eleições e logo após fechar minha livraria por não aguentar a carga de impostos jogada em minhas costas. Tenho hoje o Hank e o Roark (da nascente) como dois exemplos de a serem seguidos. Aconselho os dois livros A Nascente e A Revolta de Atlas a todos. Tanto que no natal comprei 10 box e dei de presentes a algumas pessoas próximas (ainda bem que eu ainda conseguia comprar a preço de livreiro, hehe)
ps:Acho que o livre mercado é a melhor forma de proteger tanto empregados quanto empregadores, tanto consumidores quanto produtores e acho que o governo deveria se manter bem longe da economia.
Comprei "Revolta de Atlas" pelo seu link. Abraço e obrigado!
Olá, Nicholas
Obrigado por dividir conosco suas impressões. Fiquei curioso em ler a "Revolta de Atlas" após ver este documentário da BBC:
http://baixacultura.org/2012/04/27/tudo-vigiado-por-maquinas-de-adoravel-graca/
Ele relaciona o pensamento de Ayn Rand com questões político-econômicas recentes que vieram a desembocar em grandes crises globais. Acho que irá te interessar.
Grande abraço, Sobral
Olá, Nicholas, comprei o livro influenciado por seus comentários e também pelo link do amigo Thiago Sobral (documentário "Tudo vigiado por máquinas de adorável graça").
Um livro tão antigo, porém de extrema atualidade.
Parabéns pelo Blog.
Adriano
Entre nesse link que você tem os 3 volumes do livro de graça para ler em pdf 1043 paginas
http://baixelivros.org/2013/04/17/a-revolta-de-atlas-ayn-rand/
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