Juro pela minha vida e por meu amor à ela que eu nunca viverei por outro homem, nem pedirei a outro homem que viva por mim.
- Ayn Rand

Esse livro está entre os mais vendidos na livraria cultura (ficção)! Será que se tornará tão lido aqui como nos EUA? =)
Eu realmente acredito que as idéias nesse livro podem mudar o Brasil. É um dos poucos que colocam o empreendedor como herói.
Quando um político fala "Nós vamos gerar 10 milhões de emprego". Nós quem? Político arruma cabide de emprego. Desenvolvimento e Emprego são os empreendedores que geram. O governo em vez de ajudar, atrapalha e suga até o osso! Burocracia, impostos, juros altos!
Somos ensinados que dinheiro é a origem de todo o mau, que buscar os próprios objetivos é egoísmo, que lutar pelo próprio desenvolvimento é egocêntrismo. Como Yvon Chouinard fala "Nenhuma criança deseja se tornar um homem de negócios".
Ensinam que é bom concordar com tudo, que conflito é ruim, que questionar é chato, que ser sincero é magoar, que é preciso colaborar, confiar, seguir, ter paciência, resiliência. Aceitamos tudo, e os corruptos, deitam e rolam.
A Revolta de Atlas é contra essa visão.
O que seria do mundo sem as pessoas que não se conformam, que não aceitam o mundo como é, que tem ambição, que pensam pela própria cabeça e enfrentam o incerto?
Ainda estaríamos amontoados em cavernas à mercê de doenças, fome, brigas e não aqui tranquilos em um computador, conversando com amigos no mundo inteiro.
Imagine se caras como Thomas Edison, Henry Ford, Graham Bell, Santos Dumont, fossem dar ouvidos ao pessoal do "impossível", "isso não vai dar certo", "não vale a pena", "dá muito trabalho"?
Para aqueles que buscam o poder, é difícil dominar homens assim. Eles não se submetem, não seguem, não aceitam. O jeito é desqualificar esse tipo de comportamento, dizer que é egoísmo, que eles não pensam no bem-comum.
Engraçado, os empregos que eles geram, as invenções que criam, as doenças que curam, não seriam bem-comum?
Quando desqualificar não funciona, resolvem forçá-los como aconteceu com o Giordano Bruno, que teve uma madeira pregada na língua e foi queimado na fogueira por não renunciar suas teorias e opiniões.
Além disso, o livro também é contra o conflito entre corpo e mente, como se nosso corpo fosse algo sujo, e a alma, pura. É contra a idéia de que razão e emoção são forças opostas. Afirma que corpo, mente, razão e emoção, são forças complementares e podem orientar o homem para uma direção comum.
Propõe que Felicidade não vem de esquecer os problemas e nem daquilo que os outros acham, mas sim de uma vida consciente, de propósito, de conquistas, de aprendizado.
Gostei tanto de A Nascente e de A Revolta de Atlas que até diminuiu minha vontade de ler outros livros. Não concordo com tudo e sei que ainda há muitas outras questões que tenho que buscar respostas na minha vida.
Mas sinto como se eu tivesse encontrado várias peças do quebra-cabeças.
Continua na 3ª parte... ;)
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Apenas do Volume 2 - Volumes 3 no próximo post
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Volume 2
Sabe, Sr. Stadler, as pessoas não gostam de pensar. E quanto mais problemas têm, menos querem pensar. Mas, por uma espécie de instinto, elas acham que deviam pensar e por isso sentem-se culpadas. Por esse motivo elas adoram e seguem qualquer um que lhes der uma justificativa para não pensar, qualquer um que lhes diga que é uma virtude, uma virtude altamente intelectual.
esta ferrovia era sua. Você a fez, você lutou por ela, não foi derrotado pelo medo nem pelo asco; não vou me render aos homens do sangue e da ferrugem - e eu sou a única que resta para protegê-la.
(sobre mediocridade)
- Srta. Taggart, sabe o que caracteriza o medíocre? É o ressentimento dirigido às realizações dos outros. Essas mediocridades sensíveis que vivem tremendo de medo de que o trabalho de alguém se revele mais importante que o delas - não imaginam a solidão que se sente quando se atinge o cume. A solidão por não se conhecer um igual - uma inteligência que se possa respeitar, uma realização que se possa admirar. Os medíocres, escondidos em suas tocas, rangem os dentes para a senhorita, crentes de que a senhorita sente prazer em ofuscá-los com o seu brilho, e, no entanto, a senhorita daria um ano de sua vida para ver um simples lampejo de talento entre eles. Eles invejam a capacidade, e seu sonho de grandeza e um mundo em que todos os homens sejam reconhecidamente inferiores a eles. Eles não sabem que esse sonho é a prova cabal se sua mediocridade, porque esse mundo seria insuportável para o homem capaz. Eles não sabem o que o homem capaz sente quando está cercado de seres inferiores. Ódio? Não, não é ódio, mas tédio - um tédio terrível, sem esperanças, paralisante. De que adianta receber elogios e adulações de homens por quem não se sente respeito? Já sentiu vontade de ter alguém para admirar? Algo que a obrigasse a levantar a vista?
- A minha vida inteira senti isso - disse Dagny.
Rearden o contemplava sentindo repulsa e achando graça ao mesmo tempo. O rapaz não tinha o menor escrúpulo moral. Sua formação universitária tivera esse efeito, tornando-o uma pessoa curiosamente sincera, ingênua e cínica ao mesmo tempo - era a inocência de um selvagem.
- O senhor me despreza, Sr. Rearden. - disse ele certa vez, sem nenhum ressentimento. - Não é uma atitude prática.
- Por quê? - perguntou Rearden.
O rapaz ficou confuso e não sou responder. Nunca sabia responder a um “por quê?”. Só falava por afirmativas categóricas. Dizia sobre as pessoas: “Ele é antiquado.”; “Ele é retrógrado.”; “Ele é desajustado.”. Fazia tais afirmações sem vacilar, sem justificá-las. Embora formado em metalurgia, dizia coisas como: “Creio que a fusão do ferro requer uma temperatura elevada.” Em relação ao mundo físico, só emitia opiniões incertas. Sobre os homens, só fazia afirmativas categóricas.
As horas que se seguiram, como todas as noites passadas com ele, pensou Dagny, seriam acrescentadas àquela caderneta de poupança da vida da gente em que depositamos os momentos que nos orgulhamos de tê-lo vivido, mas o de ter sobrevivido. É errado, pensou ela, terrivelmente errado que alguém seja forçado a dizer isso sobre qualquer instante de sua própria vida.
Lá, no campo, também era o seu lugar, pensou ela, todo o lugar era seu lugar - seu lugar era a Terra -, então lhe ocorreram palavras mais exatas: a Terra era dele, ele estava em casa na Terra.
A vida do homem era movimento orientado para um propósito. Qual seria o estado de um ser a quem eram negados um propósito e o movimento, um ser acorrentado, porém capaz de respirar e de ver todas as magníficas possibilidades que ele teria capacidade de atingir, reduzido a gritar “Por quê?” e receber, como única resposta, o cano de uma arma? Ele deu de ombros e seguiu em frente. Só estava interessado em encontrar a resposta.
Observou, indiferente, a devastação causada pela própria indiferença. Por mais difíceis que fossem as batalhas que havia travado no passado, nunca antes chegara à baixeza última de abandonar a vontade de agir. Em momentos de dor, nunca antes deixara que a dor tivesse sua única vitória permanente: jamais lhe permitira fazê-lo perder o desejo de ser feliz.
Apreendeu uma sensação que sempre experimentava, mas que jamais pudera identificar, porque sempre fora absoluta e imediata: uma sensação que o proibia de encará-la quando ele estava sofrendo. Era muito mais do que o orgulho de não querer que ela testemunhasse seu sofrimento: era a sensação de que não devia reconhecer a existência do sofrimento em sua presença, de que o vínculo que existia entre eles jamais poderia ser motivado pela dor e orientado para a piedade. Não era piedade que ele trazia aqui nem pretendia encontrar aqui.
o renascimento do seu amor à vida não fora ocasionado pelo renascimento de seu desejo por ela, e sim o desejo fora restituído pela reconquista de seu mundo, do amor, do valor que ele atribuía àquele mundo - e que o desejo não era uma reação ao corpo dela, e sim uma comemoração de si próprio, de sua vontade de viver.
Ele não sabia, não pensava nisso, não precisava mais de palavras, mas, no momento em que sentiu o corpo dela responder ao seu, sentiu também a consciência [...] de que [...] aquilo era a maior virtude que ela possuía: essa capacidade de sentir a alegria de ser que ela sentia.
Sentia uma dor turva, serpenteante: era ciúme de todos os homens que falavam com ela [...]
Naquele momento, desapareceram todos os dias e dogmas de seu passado. Seus conceitos, seus problemas, sua dor foram eliminados. Sabia apenas - de uma longa distância, com clareza - que o homem existe para realizaer seus desejos e não sabia por que estava ali, não sabia quem tinha o direito de exigir que ele desperdiçasse uma única hora insubstituível de sua vida, quando seu único desejo era agarrar aquela figura esbelta e cinzenta e apertá-la contra seu corpo durante todo o restante de sua existência.
- Então por que a senhorita está usando essa pulseira?
Dagny a olhou bem nos olhos:
- Eu sempre a uso.
- A senhorita não acha que está levando essa brincadeira longe demais?
- Nunca foi uma brincadeira, Sra. Rearden.
- Então a senhorita há de compreender se eu dissesse que gostaria que me devolvesse essa pulseira.
- Eu compreendo. Mas não vou devolvê-la.
[...]
- O que a senhorita quer que eu pense disso?
- O que a senhora quiser.
- Qual o motivo que a faz agir assim?
- A senhora sabia qual era o motivo quando me deu a pulseira.
[...]
O sorriso de Lillian voltou, como uma proteção, um sorriso irônico e condescendente cujo objetivo era transformar a questão num assunto de conversa de salão mais uma vez.
- Estou certa, Srta. Taggart, de que a senhorita compreende como a sua atitude é absolutamente imprópria.
- Não.
- Mas a senhorita há de perceber que está correndo um risco muito perigoso e desagradável.
- Não.
- A senhorita não leva em conta a possibilidade de ser... mal interpretada?
- Não.
[...]
- Mas a senhorita não pode ignorar essa possibilidade.
- Posso. - Dagny se virou para se afastar.
- Ah, mas por que fugir da discussão se não tem nada a esconder [..] será lícito ignorar o perigo que isso representa para o Sr. Rearden?
Dagny perguntou, devagar:
- Qual o perigo para o Sr. Rearden?
- Estou certa de que me entendeu.
- Não entendi.
- Ah, mas certamente não é necessário ser mais explícita.
- É sim, se a senhora quer continuar esta conversa.
Houve uma época em que as pessoas tinham medo de que alguém revelasse algum segredos delas. Hoje em dia, elas têm medo de que alguém mencione aquilo que todos sabem.
É isto que quero, pensou agora, ao constatar que sorria ao ver Francisco no meio da multidão: esta estranha sensação de expectativa, que mistura curiosidade, bem-estar e esperança.
(discurso do dinheiro - Francisco D'Anconia - ótimo!)
Então o senhor acha que o dinheiro é a origem de todo o mal? O senhor já se perguntou qual a origem do dinheiro? Ele é um instrumento de troca, que só pode existir quando há bens produzidos e homens capazes de produzí-los [...] O dinheiro não é o instrumento dos pidões, que recorrem às lágrimas para pedir produtos, nem dos saqueadores, que os levam às forças [...] Não são os pidões nem os saqueadores que dão ao dinheiro o seu valor. Nem um oceano de lágrimas nem todas as armas do mundo podem transformar aqueles pedaços de papel no seu bolso no pão que você precisa para sobreviver [...] O dinheiro é feito - antes de poder ser embolsado pelos pidões e pelos saqueadores - pelo esforço de todo homem honesto [...] aquele que sabe que não pode consumir mais do que produz. Comerciar por meio do dinheiro é o código dos homens de boa vontade. O dinheiro se baseia no axioma de que todo homem é proprietário da sua mente e de seu trabalho [...] O dinheiro permite que você obtenha em troca dos seus produtos e de seu trabalho aquilo que seus produtos e seu trabalho valem para os homens que o adquirem, nada mais do que isso [...] é preciso oferecer valores, não dores [...] o vínculo comum entre os homens não é a troca de sofrimento, mas a troca de bens. O dinheiro exige que o senhor venda não a sua fraqueza à estupidez humana, mas o seu talento à razão humana [...]
quando os homens vivem do comércio - com a razão e não à força, como árbitro ao qual não se pode mais apelar -, é o melhor produto que sai vencendo, o melhor desempenho, o homem de melhor juízo e maior capacidade - e o grau de produtividade de um homem é o grau de sua recompensa [...] é isso que o senhor considera mau? [...]
Mas o dinheiro é só um instrumento [...] ele lhe dá meios de satisfazer seus desejos, mas não lhe cria os desejos. O dinheiro é o flagelo dos homens que tentam inverter a lei da casualidade - aqueles que tentam substituir a mente pelo sequestro dos produtos da mente. O dinheiro não compra felicidade para o homem que não sabe o que quer, não lhe dá um código de valores se não tem conhecimento a respeito de valores, não lhe dá um objetivo se ele não escolhe uma meta. O dinheiro não compra inteligência para o estúpido, nem admiração para o covarde, nem respeito para o incompetente. O homem que tenta comprar o cérebro de quem lhe é superior para serví-lo, usando dinheiro para substituir o seu juízo, termina vítima dos que lhe são inferiores. Os homens inteligentes o abandonam, mas os trapaceiros e vigaristas correm atraídos por uma lei que ele ainda não descobriu: o homem não pode ser menor do que o dinheiro que ele possui [...] se um herdeiro esta à altura de sua herança, ela o serve; caso o contrário, ela o destrói [...] não pense que ela deveria ser distribuída - criar 50 parasitas em lugar de um [...]
O veredicto que o senhor dá a fonte do seu sustento é aquele que dá à sua própria vida. Se a fonte é corrupta, o senhor condena a própria existência. O dinheiro provém da fraude? Da exploração dos vícios e da estupidez humanos? O senhor o obteve servindo aos insensatos, na esperança de que lhe dessem mais do que sua capacidade merece? Baixando seus padrões de exigência? Fazendo um trabalho que o senhor despreza para compradores que não respeita? Nesse caso, o seu dinheiro não lhe dará um momento sequer de felicidade. Todas as coisas que adquirir serão não um tributo ao senhor, mas uma acusação; não uma realização, mas um momento de vergonha. Então o senhor dirá que o dinheiro é mau. Mau porque ele não substitui o seu amor-próprio? Mau porque ele não permite que o senhor aproveite e goze sua depravação? [...] O dinheiro é produto da virtude, mas não dá virtude nem redime vícios. Ele não lhe dá o que o senhor merece, nem em termos materiais nem espirituais [...]
O homem que venderia a própria alma por um tostão é o que mais alto brada que odeia o dinheiro - e ele tem bons motivos para odiá-lo. Os que amam o dinheiro estão dispostos a trabalhar para ganhá-lo. Eles sabem que são capazes de merecê-lo. Eis uma boa pista para saber o caráter dos homens: aquele que amaldiçoa o dinheiro o obtém de modo desonroso; aquele que o respeita, o ganha honestamente. Fuja do homem que diz que o dinheiro é mau. Essa afirmativa é o estigma que identifica o saqueador [...] Enquanto os homens viverem juntos na Terra e precisarem de um meio para negociar, se abandonarem o dinheiro, o único substituto que encontrarão será o cano do fuzil [...]
Quando há comércio não por consentimento, mas por compulsão, quando para produzir é necessário pedir permissão para homens que nada produzem - quando o dinheiro flui para aqueles que não vendem produtos, mas têm influência -, quando a corrupção é recompensada e a honestidade vira um sacrifício -, pode ter certeza que a sociedade está condenada [...]
no decorrer de séculos de estagnação e fome, os homens exaltavam os saqueadores, como aristocratas da espada aristocratas de estirpe, aristocratas da tribuna, e desprezavam os produtores, como escravos, mercadores, lojistas... industriais [...]
As mentes apodrecidas que afirmam não ver diferença entre o poder do dólar e o poder do açoite merecem aprender a diferença na própria pele, que, creio eu, é o que vai acabar acontecendo [...] Quando o dinheiro deixa de ser o instrumento por meio do qual os homens lidam uns com os outros, então os homens se tornam os instrumentos dos homens. Sangue, açoites, armas - ou dólares. Façam a sua escolha.
Eles não estão dispostos a suportar nada. O senhor está disposto a suportar qualquer coisa. Ele vivem fugindo às responsabilidades. O senhor vive assumindo-as. Mas não vê que o erro essencial é o mesmo?
Sei que você tem força o suficiente para não se deixar magoar, mas eu não tenho o direito de abusar dessa força.
Não aceito sacrifícios nem os faço [...] Se o prazer de um tem que ser pago pelo sofrimento do outro, então é melhor que não haja comércio nenhum. Uma transação comercial na qual um sai lucrando e o outro sai perdendo é uma fraude. Você não faz isso em seu trabalho, Hank. Não o faça na sua vida.
Sabe qual é a sua única culpa? Apesar de ter tanta capacidade para ter prazer, você nunca se permitiu isso. Sempre rejeitou o próprio prazer com muita facilidade.
- Não sei por quê - disse ele. - Mas olho para as pessoas e tenho a impressão que elas são feitas só de dor. Ele, não. Você, não.
É impossível governar homens honestos. O único poder que qualquer governo tem é o de reprimir os criminosos. Bem, então, se não temos criminosos o bastante, o jeito é criá-los. E fazer leis que proíbem tanta coisa que se torna impossível viver sem violar alguma. Quem vai querer um país cheio de cidadãos que respeitam as leis? O que se vai ganhar com isso? Mas basta criar leis que não podem ser cumpridas nem objetivamente interpretadas, leis que é impossível fazer com que sejam cumpridas a rigor, e pronto! Temos um país repleto de pessoas que violam a lei, então é só faturar em cima dos culpados.
- Sr. Danagger, se eu lhe implorasse de joelhos, se eu encontrasse palavras que ainda não encontrei... haveria... há alguma posssibilidade de convencê-lo a mudar de idéia?
- Não.
Por que desperdiçamos isso? Por que nós dois fomos condenados a passar as horas que não estávamos no escritório como exilados entre estranhos antipáticos que nos fizeram abandonar toda a vontade de descansar, de desfrutar as amizades, de ouvir vozes humanas? Será que eu poderia agora recuperar uma hora que fosse das que gastei conversando com meu irmão Philip e dá-la a Ken Danagger? Quem foi que nos impôs a obrigação de aceitar como única recompensa por nosso trabalho a tortura de fingir amar aqueles que só despertam em nós o desprezo?
Toda a sua vida o senhor vem sendo denunciado não pelos seus defeitos, mas pelas suas maiores virtudes. Vem sendo odiado, não por seus erros, mas por suas realizações. Escarnecido por todas aquelas qualidades de caráter das quais mais se orgulha. Chamado de egoísta por ter coragem de agir com base no seu próprio julgamento e assumir sozinho a responsabilidade pela sua própria vida. Chamado de arrogante por ter uma mente independente. Chamado de cruel por possuir uma integridade inflexível. Chamado de antissocial por ter uma visão que o levou a descortinar novos caminhos. Chamado de implacável por ter força e auto-disciplina para atingir seus objetivos. Chamado de ganancioso por ter o poder magnífico de criar riquezas.
O senhor é culpado de um grande pecado, Sr. Rearden, muito mais culpado do que eles dizem, só que não do jeito que eles dizem. A pior culpa é aceitar uma culpa imerecida, e é isso o que vem fazendo a vida toda [...] Mais vil do que assassinar um homem é lhe oferecer suicídio como ato virtuoso. Mais vil que lançar um homem na pira de holocausto é exigir que ele pule para dentro dela, por livre e espontânea vontade, depois de tê-la ele próprio construído.
Ao ritmo de seu corpo, com o calor fortíssimo em seu rosto e a noite de inverno sobre seus ombros, Rearden viu de repente que esta era a essência simples do universo: a recusa imediata a se submeter ao desastre, o impulso irresistível de combatê-lo, a sensação triunfante de ser capaz de vencer [...] de vez em quando entrevia um rosto cheio de suor e era o rosto mais feliz que ele jamais vira.
Contar com a virtude dele e utilizá-la como instrumento de tortura, praticar chantagem utilizando a generosidade da vítima como o único método de extorsão, aceitar a boa vontade de um homem e transformá-la no instrumento de destruição desse próprio homem... Rearden permanecia imóvel, pensando na fórmula de uma maldade tão monstruosa que ele só conseguia identificar, sem poder identificar que fosse possível.
- Se você não mostrar que está disposto a ceder e cooperar, não vai ter saída. Você tem dificultado muito as coisas.
- Não. Tenho facilitado demais.
Talvez eu lhe deva uma explicação, se lhe passei uma idéia errada. Nunca tentei chamar a atenção para o fato de que você vive da minha caridade. Eu achava que cabia a você ter isso em mente. Achava que qualquer ser humano que aceita a ajuda de outro sabe que a boa vontade é a única coisa que motiva aquele que ajuda, e que o pagamento que ele lhe deve é a boa vontade. Mas vejo que eu estava enganado. Você recebia a sua comida sem fazer nada para merecê-la e concluiu que também não era preciso fazer nada para merecer afeição. Você concluiu que eu era a pessoa no mundo em quem podia cuspir com a maior tranquilidade, exatamente porque eu tinha esse poder sobre você. Você concluiu que eu não ia querer chamar a atenção para esse fato com medo de ferir a sua sensibilidade. Então vamos encarar a realidade: você vive de caridade, e há muito tempo você já esgotou minha paciência. Todo e qualquer afeto que algum dia eu já tenha sentido por você acabou. Não tenho o menor interesse por você, pelo seu futuro, nada. Não tenho nenhum motivo para querer alimentar você. Se for embora daqui, para mim não irá fazer a menor diferença se você vai morrer de fome ou não. Pois essa é a sua posição, e espero que você tenha isso em mente se quiser continuar morando aqui.
- Não vou ajudá-los a fingir que eu tenho alguma chance. Não vou ajudá-los a manter uma aparência de justiça quando os meus direitos não estão sendo reconhecidos. Não vou ajudá-los a manter uma aparência de racionalidade entrando numa discussão em que o argumento final é uma arma de fogo. Não vou ajudá-los a fingir que o que está acontecendo é um ato de justiça.
- Mas a lei o obriga a apresentar a sua defesa!
Houve uma gargalhada no fundo da platéia.
- É essa a falha da sua teoria, senhores - disse Rearden, sério -, e não vou ajudá-los a contorná-la. Se optaram por tratar as pessoas por meio da força, que o façam [...] Se acreditarem que têm o direito de me forçar, usem suas armas abertamente. Não vou ajudá-los a disfarçar a natureza de seus atos.
(sobre amor - Francisco D'Anconia - muito bom!)
- O senhor acha que eu tenho um terrível complexo de inferioridade?
- Não, absolutamente não!
- Só esse tipo de homem passa a vida correndo atrás de mulheres [...] Pois o homem que sente desprezo por si mesmo tenta obter amor-próprio por meio de aventuras sexuais - o que é inútil, porque o sexo não é a causa, e sim o efeito e uma manifestação da imagem que um homem faz do próprio valor [...] O amor é cego, dizem. O sexo é imune à razão [...]. Mas, na verdade, a escolha sexual de um homem é o resultado e o somatório de suas convicções fundamentais. Diga-me o que um homem acha sexualmente atraente que lhe direi qual é toda a sua filosofia de vida. Mostre-me a mulher com que ele dorme e lhe direi a imagem que ele faz de si próprio [...]
o ato sexual é [...] um ato que força o homem a ficar nu tanto no corpo quanto no espírito e a aceitar seu ego verdadeiro como padrão de valor [...] O homem que está convicto do seu próprio valor e dele se orgulha há de querer o tipo mais elevado de mulher possível, a mulher que ele admira, a mais forte, a mais difícil de conquistar, porque somente a posse de uma heroína lhe dará a consciência de ter realizado algo, não apenas de ter possuído uma vagabunda desprovida de inteligência [...] Ele não tenta ganhar seu valor, e sim exprimí-lo. Não há conflitos entre os padrões da sua mente e os desejos de seu corpo. Mas o homem que está convencido de que não tem valor será atraído por uma mulher que despreza, porque ela refletirá o seu próprio eu secreto e lhe proporcionará uma fuga daquela realidade objetiva em que ele é uma fraude [...] Observe o caos que é a vida sexual da maioria dos homens e repare no amontoado de contradições que constitui a sua filosofia moral. Uma deriva da outra. O amor é nossa resposta aos nossos valores mais elevados e não pode ser outra coisa. O homem que corrompe seus próprios valores e a visão que tem da sua existência [...] se parte em dois. Seu corpo não lhe obedecerá, não reagirá da forma apropriada e o tornará impotente em relação à mulher que ele afirma amar, impelindo-o para a prostituta mais abjeta que puder encontrar [...] Então, vocifera que seu corpo tem desejo abjetos que sua mente não consegue dominar, que o sexo é pecado, que o verdadeiro amor é uma emoção puramente espiritual. E então ele não entende por que o amor só lhe provoca tédio, e a sexualidade, apenas vergonha [...]
observe que a maioria das pessoas é uma criatura partida em duas, que vive pulando desesperadamente de um pólo para outro. Um dos tipos é o homem que despreza o dinheiro, as fábricas, os arranha-céus e seu próprio corpo. [...] geme de desespero porque não consegue sentir nada pelas mulheres que respeita, porém sente-se aprisionado por uma paixão irresistível dirigida a uma vagabunda que encontrou na sarjeta [...]
O outro tipo é o que chamam de prático, que despreza os princípios, as abstrações, a arte, a filosofia e a própria mente. Ele tem como único objetivo na vida a aquisição de objetos materiais e ri quando lhe falam da necessidade de considerar se objetivo ou sua fonte. Ele acha que tais coisas devem lhe proporcionar prazer e não entende por que quanto mais acumula, menos prazer sente. Esse é o homem que vive correndo atrás de mulheres. Observe a tripla fraude que comete contra si próprio. Ele não reconhece sua necessidade de amor-próprio, pois ri do conceito de valor moral. No entanto, sente o profundo desprezo por si próprio que caracteriza aqueles que acham que não passam de um pedaço de carne. [...] Assim, ele tenta, realizando os gestos que constituem o efeito, adquirir o que deveria ser a causa. Ele tenta afirmar o seu próprio valor por intermédio das mulheres que se entregam a ele e esquece que as mulheres que escolhe não têm caráter, nem julgamento, nem padrões de valores. Ele diz a si próprio que tudo o que quer é o prazer físico, porém observe que ele se cansa de uma mulher em uma semana ou uma noite, que despreza prostitutas profissionais e adora imaginar que está seduzindo moças direitas que abrem uma exceção para ele. É a sensação de realização que ele busca e jamais encontra. Que glória pode haver em conquistar um corpo desprovido de mente? Pois é esse o homem que vive correndo atrás de mulheres [...]
Essas mulheres estão atrás da mesma coisa que os homens que vivem andando atrás de um rabo de saia: só querem aumentar seu próprio valor por meio do número e da fama dos homens que conquistam. Só que são ainda mais falsas, porque o valor que elas buscam nem é o ato em si, mas a impressão que vão causar nas outras mulheres, bem como a inveja que vão provocar [...]
Uma cidade é a forma concretizada da coragem humana [...] A coragem de dizer não “a meu ver”, mas “o fato é o seguinte”, e apostar sua própria vida no seu julgamentlo. Você não está sozinha. Esses homens existem. Eles sempre existiram. Houve um tempo em que os seres humanos se acocoravam em cavernas, à mercê de todas as pestes e tempestades [...] - Apontou para a cidade. [...] - Pois essa é a prova que existe outro tipo de homem.
Era um terror esquivo, como o sentimento de culpa: não o medo que é fruto do conhecimento, mas da recusa em compreender.
Queria que ela entendesse, mas não que entendesse inteiramente, explicitamente, até a raiz - já que a essência da linguagem moderna, que ele aprendera a falar com perfeição, era jamais deixar que ele próprio ou os outros entendessem nada até a raiz.
Sejam quais forem os direitos que você tem sobre mim - disse ele -, nenhum ser humano pode ter sobre outro direitos que exijam que este este anule sua própria existência.
Embora detivesse um poder oficial imenso, vivia tramando para aumentá-lo, porque era isso qie os que o haviam empurrando para o cargo esperavam dele. Tinha a astúcia dos poucos inteligentes e a energia frenética dos preguiçosos. O único segredo de seu sucesso na vida era o fato de que ele era um produto do acaso, estava consciente disso e não aspiravam a mais nada.
O tio Julius não gostava de gente muito inteligente. Também não gostava de ter que administrar suas finanças, então atribuiu a Mouch a responsabilidade por isso. Quando este terminou a faculdade, já não havia mais dinheiro para administrar. O tio Julius pôs a culpa na astúcia de Mouch e o acusou de ser um patife sem escrúpulos. Na verdade, porém, este não tinha tramado nada - ele próprio não fazia idéia do que acontecera com o dinheiro [...]
Daí em diante, as pessoas foram ajudando Mouch a subir pelo mesmo motivo que levara seu tio Julius a favorecê-lo: eram indivíduos que achavam que a mediocridade é confiável [...] Com base na situação do momento, tinham concluído que Mouch era um homem de grande capacidade e argúcia, já que milhões de pessoas aspiravam ao poder mas só ele conseguira obtê-lo.
- Não vão criar problema nenhum. - disse Kinnan. - O tipo de intelectuais que são seus amigos são os primeiros a gritar quando se sentem seguros, e os primeiros a calar a boca quando veêm sinal de perigo. Passam anos cuspindo na mão do homem que lhes dá de comer e depois lambem a mão do que lhes dá um tabefe [...]
Pode-se se preocupar com qualquer outro tipo de pessoa, menos com os intelectuais modernos: eles engolem qualquer coisa. Eu me preocupa mais com o mais baixo estivador do sindicato dos marítimos: esse pode até de repente lembrar que é um ser humano, e aí não vou mais conseguir fazer que ele ande na linha [...] Não é preciso se preocupar com os intelectuais, Wesley. Basta botar alguns deles na folha de pagamento do governo e mandá-los pregar exatamente as coisas que o sr. Kinnan mencionou: a idéia de que a culpa é das vítimas. Dê-lhes salários razoáveis e título grandiloquentes que eles se esquecem [...].
[...] só se pode desarmar um homem por meio da culpa. Por intermédio daquilo que ele mesmo aceita como culpa [...] ele será capaz de suportar qualquer infelicidade, achando que é merecida. Se não há bastante culpa no mundo, precisamos criá-la. Se ensinamos a um homem que é errado olhar para as flores e ele acredita em nós e depois olha para as flores, podemos fazer o que quisermos com ele. Ele não vai se defender. Vai achar que é bem-feito. Não vai lutar. Mas o perigo é o homem que obedece os seus próprios padrões morais. Cuidado com o homem de consciência limpa. É esse que vai nos derrotar.
- [...] como é que a emergência vai acabar se tudo vai continuar como está?
- Não seja teórico - respondeu Mouch, impaciente. - Temos qjue encarar a situação do momento. Não se preocupe com detalhes menores, desde que as linhas mestras de nossa política estejam definidas. Nós teremos o poder necessário para resolver qualquer problema e responder a qualquer pergunta.
Por pior que tivesse sido a noite anterior, todas as manhas Dagny sentia uma energia em seu corpo e uma fome de atividade em sua mente - porque estava começando mais um dia, e era um dia na vida dela [...]
Ela sentou-se à mesa, sorrindo, desafiando o que havia de desagradável em seu trabalho. Detestava aqueles relatórios que precisava terminar de ler, mas era o seu trabalho, era manhã.
[...] a fuga à dor e não a busca pelo prazer como único incentivo para o esforço é a única recompensa para o trabalho [...] de tal modo que o homem que nada teria a oferecer nada teria a temer [...], de tal modo que aquilo que a pessoa tinha de melhor se tornava o instrumento de tortura que a supliciava [...].
[...] Faz o possível para que nunca ninguém possa atribuir uma decisão a ele, para que ninguém possa culpá-lo por nada que dê errado. O objetivo dele não é administrar uma rede ferroviária, e sim se manter no cargo. Ele não quer lidar com trens, quer agradar Jim. Pouco lhe importa se os trens estão andando ou não, desde que cause uma boa impressão no Jim e no pessoal de Washington.
Não posso computar todo o dinheiro que já foi arrancado do senhor, em impostos disfarçados, em regulamentos, em tempo desperdiçado, em esforço em vão, em energia gasta para vencer obstáculos artificiais.
[...] há anos, no ensino fundamental, no médio e na faculdade, Chalmers aprendera que o homem não vive e não precisa viver com base na razão.
Fechou os olhos e ficou imóvel, sentindo os raios de sol no corpo. Era isto a realização, pensou ela: gozar aquele momento, não deixar que nenhuma dor lembrada amortecesse sua capacidade de sentir o que sentia agora. Enquanto pudesse preservar aquele sentimento, teria combustível para seguir em frente.
Dagny, jamais podemos perder as coisas que são motivo de nossa existência.
Não posso nem existir sem trabalhar, nem trabalhar como uma escrava. Sempre achei que todas as formas de lutar eram válidas - menos a renúncia [...] Se abandonarmos tudo, estamos nos rendendo; se ficarmos, também é uma rendição. Não sei mais o que é certo.
Dagny, nós, a quem os assassinos do espírito humano chamam de “materialistas”, somos, os únicos que sabemos como é pequeno o valor dos objetos materiais enquanto tais, porque [...] podemos nos permitir abrir mão deles [...] Você não depende de nenhuma posse material, elas é que dependem de você. É você quem as cria [...] sempre poderá produzir. Mas os saqueadores [...] estão sempre em estado de necessidade desesperada e congênita, sempre à mercê da matéria cega. [...] Eles precisam de ferrovias, fábricas, minas e motores que não sabem fazer nem administrar.
- Não se preocupe comigo, Hank. Amanhã já estarei em forma.
- Não me preocupo com você, querida. Nos vemos hoje à noite.
[...] é meu amor por você que me impele, meu amor e minha esperança de ser merecedora de você no que dia em que eu o encarar face a face.
Não posso aceitar o que eles estão aceitando [...] é a coisa que nós achávamos terrível, acreditar que os desastres são o destino natural do homem, que o destino deve ser suportado, e não combatido. Não posso aceitar a submissão. Não posso aceitar a impotência. Não posso aceitar a renúncia.
Ah, o que há com todos nós? Por que só há sofrimento para todos? Por que sofremos tanto? A vida não deve ser assim. Sempre achei que a felicidade era nosso destino natural. O que estamos fazendo? O que perdemos? [...] Era tão bom viver, tantas oportunidades [...]
Há sempre um lugar para a gente ir. Só para não ficar parado [...] acho que é pecado ficar sentado desperdiçando a vida, sem tentar fazer alguma coisa.
(parábola de fábrica)
[...] O plano era o seguinte: cada um trabalhava conforme sua capacidade e recebia conforme sua necessidade. [...]
Aprovamos o tal plano numa assembléia [...] Ninguém sabia como o plano ia funcionar, mas todo mundo achava que o outro sabia. E quem tinha dúvida se sentia culpado e não dizia nada, porque, do jeito que os herdeiros falavam, quem fosse contra era desumano e assassino de criancinhas. Disseram que iam concretizar um nobre ideal. Como é que a gente podia saber? Não era isso que a gente ouvia a vida toda dos pais, professores e pastores, em todos os jornais, filmes e discursos políticos? Não diziam que isso era o certo e o justo? [...] Capacidade de quem? Necessidade de quem, quem tem prioridade? [...] Tudo era resolvido na base da votação [...] Bastou a primeira para a gente descobrir que todo mundo tinha virado mendigo [...] tinha que pedir em público para que atendessem as suas necessidades, como qualquer parasita, enumerando todos os seus problemas, até os remendos da calça [...] O jeito era chorar miséria, porque era a sua miséria, e não o seu trabalho, que agora era a moeda corrente de lá [...] A senhora imagina o que aconteceu, o tipo de homem que ficava calado, com vergonha, e que tipo de homem levava a melhor? [...] Começamos a esconder a nossa capacidade, a trabalhar mais devagar [...] A vida inteira nos ensinaram que os lucros e a competição tinham um efeito nefasto, que era terrível um competir com o outro [...] pois deviam ver o que acontecia quando um competia com o outro para ver quem era o pior. Não há maneira melhor de destruir um homem do que obrigá-lo a tentar não fazer o melhor do que é capaz [...] mata mais do que a bebida, a vadiagem, a vida de crime [...]
No começo, éramos pessoas bem honestas, e só havia uns poucos aproveitadores. Éramos competentes, nos orgulhávamos do nosso trabalho [...] Um ano depois da implantação do plano, não havia mais nenhum homem honesto entre nós [...] A questão não foi que o plano estimulasse uns poucos corruptos, e sim que ele corrompia pessoas honestas [...] Queriam que trabalhássemos em nome do quê? Do amor por nossos irmãos? Que irmãos? Os parasitas, os sanguessugas que víamos ao redor? [...] Amor fraternal? Foi então que aprendemos, pela primeira vez na vida, a odiar nossos irmãos.
Dagny percebeu que caminha com um esforço cada vez maior, como se lutasse contra uma resistência que não era pressão, e sim uma sucção [...] duas figuras solitárias lutando [...] contra a inexistência.
Sabe, Sr. Stadler, as pessoas não gostam de pensar. E quanto mais problemas têm, menos querem pensar. Mas, por uma espécie de instinto, elas acham que deviam pensar e por isso sentem-se culpadas. Por esse motivo elas adoram e seguem qualquer um que lhes der uma justificativa para não pensar, qualquer um que lhes diga que é uma virtude, uma virtude altamente intelectual.
esta ferrovia era sua. Você a fez, você lutou por ela, não foi derrotado pelo medo nem pelo asco; não vou me render aos homens do sangue e da ferrugem - e eu sou a única que resta para protegê-la.
(sobre mediocridade)
- Srta. Taggart, sabe o que caracteriza o medíocre? É o ressentimento dirigido às realizações dos outros. Essas mediocridades sensíveis que vivem tremendo de medo de que o trabalho de alguém se revele mais importante que o delas - não imaginam a solidão que se sente quando se atinge o cume. A solidão por não se conhecer um igual - uma inteligência que se possa respeitar, uma realização que se possa admirar. Os medíocres, escondidos em suas tocas, rangem os dentes para a senhorita, crentes de que a senhorita sente prazer em ofuscá-los com o seu brilho, e, no entanto, a senhorita daria um ano de sua vida para ver um simples lampejo de talento entre eles. Eles invejam a capacidade, e seu sonho de grandeza e um mundo em que todos os homens sejam reconhecidamente inferiores a eles. Eles não sabem que esse sonho é a prova cabal se sua mediocridade, porque esse mundo seria insuportável para o homem capaz. Eles não sabem o que o homem capaz sente quando está cercado de seres inferiores. Ódio? Não, não é ódio, mas tédio - um tédio terrível, sem esperanças, paralisante. De que adianta receber elogios e adulações de homens por quem não se sente respeito? Já sentiu vontade de ter alguém para admirar? Algo que a obrigasse a levantar a vista?
- A minha vida inteira senti isso - disse Dagny.
Rearden o contemplava sentindo repulsa e achando graça ao mesmo tempo. O rapaz não tinha o menor escrúpulo moral. Sua formação universitária tivera esse efeito, tornando-o uma pessoa curiosamente sincera, ingênua e cínica ao mesmo tempo - era a inocência de um selvagem.
- O senhor me despreza, Sr. Rearden. - disse ele certa vez, sem nenhum ressentimento. - Não é uma atitude prática.
- Por quê? - perguntou Rearden.
O rapaz ficou confuso e não sou responder. Nunca sabia responder a um “por quê?”. Só falava por afirmativas categóricas. Dizia sobre as pessoas: “Ele é antiquado.”; “Ele é retrógrado.”; “Ele é desajustado.”. Fazia tais afirmações sem vacilar, sem justificá-las. Embora formado em metalurgia, dizia coisas como: “Creio que a fusão do ferro requer uma temperatura elevada.” Em relação ao mundo físico, só emitia opiniões incertas. Sobre os homens, só fazia afirmativas categóricas.
As horas que se seguiram, como todas as noites passadas com ele, pensou Dagny, seriam acrescentadas àquela caderneta de poupança da vida da gente em que depositamos os momentos que nos orgulhamos de tê-lo vivido, mas o de ter sobrevivido. É errado, pensou ela, terrivelmente errado que alguém seja forçado a dizer isso sobre qualquer instante de sua própria vida.
Lá, no campo, também era o seu lugar, pensou ela, todo o lugar era seu lugar - seu lugar era a Terra -, então lhe ocorreram palavras mais exatas: a Terra era dele, ele estava em casa na Terra.
A vida do homem era movimento orientado para um propósito. Qual seria o estado de um ser a quem eram negados um propósito e o movimento, um ser acorrentado, porém capaz de respirar e de ver todas as magníficas possibilidades que ele teria capacidade de atingir, reduzido a gritar “Por quê?” e receber, como única resposta, o cano de uma arma? Ele deu de ombros e seguiu em frente. Só estava interessado em encontrar a resposta.
Observou, indiferente, a devastação causada pela própria indiferença. Por mais difíceis que fossem as batalhas que havia travado no passado, nunca antes chegara à baixeza última de abandonar a vontade de agir. Em momentos de dor, nunca antes deixara que a dor tivesse sua única vitória permanente: jamais lhe permitira fazê-lo perder o desejo de ser feliz.
Apreendeu uma sensação que sempre experimentava, mas que jamais pudera identificar, porque sempre fora absoluta e imediata: uma sensação que o proibia de encará-la quando ele estava sofrendo. Era muito mais do que o orgulho de não querer que ela testemunhasse seu sofrimento: era a sensação de que não devia reconhecer a existência do sofrimento em sua presença, de que o vínculo que existia entre eles jamais poderia ser motivado pela dor e orientado para a piedade. Não era piedade que ele trazia aqui nem pretendia encontrar aqui.
o renascimento do seu amor à vida não fora ocasionado pelo renascimento de seu desejo por ela, e sim o desejo fora restituído pela reconquista de seu mundo, do amor, do valor que ele atribuía àquele mundo - e que o desejo não era uma reação ao corpo dela, e sim uma comemoração de si próprio, de sua vontade de viver.
Ele não sabia, não pensava nisso, não precisava mais de palavras, mas, no momento em que sentiu o corpo dela responder ao seu, sentiu também a consciência [...] de que [...] aquilo era a maior virtude que ela possuía: essa capacidade de sentir a alegria de ser que ela sentia.
Sentia uma dor turva, serpenteante: era ciúme de todos os homens que falavam com ela [...]
Naquele momento, desapareceram todos os dias e dogmas de seu passado. Seus conceitos, seus problemas, sua dor foram eliminados. Sabia apenas - de uma longa distância, com clareza - que o homem existe para realizaer seus desejos e não sabia por que estava ali, não sabia quem tinha o direito de exigir que ele desperdiçasse uma única hora insubstituível de sua vida, quando seu único desejo era agarrar aquela figura esbelta e cinzenta e apertá-la contra seu corpo durante todo o restante de sua existência.
- Então por que a senhorita está usando essa pulseira?
Dagny a olhou bem nos olhos:
- Eu sempre a uso.
- A senhorita não acha que está levando essa brincadeira longe demais?
- Nunca foi uma brincadeira, Sra. Rearden.
- Então a senhorita há de compreender se eu dissesse que gostaria que me devolvesse essa pulseira.
- Eu compreendo. Mas não vou devolvê-la.
[...]
- O que a senhorita quer que eu pense disso?
- O que a senhora quiser.
- Qual o motivo que a faz agir assim?
- A senhora sabia qual era o motivo quando me deu a pulseira.
[...]
O sorriso de Lillian voltou, como uma proteção, um sorriso irônico e condescendente cujo objetivo era transformar a questão num assunto de conversa de salão mais uma vez.
- Estou certa, Srta. Taggart, de que a senhorita compreende como a sua atitude é absolutamente imprópria.
- Não.
- Mas a senhorita há de perceber que está correndo um risco muito perigoso e desagradável.
- Não.
- A senhorita não leva em conta a possibilidade de ser... mal interpretada?
- Não.
[...]
- Mas a senhorita não pode ignorar essa possibilidade.
- Posso. - Dagny se virou para se afastar.
- Ah, mas por que fugir da discussão se não tem nada a esconder [..] será lícito ignorar o perigo que isso representa para o Sr. Rearden?
Dagny perguntou, devagar:
- Qual o perigo para o Sr. Rearden?
- Estou certa de que me entendeu.
- Não entendi.
- Ah, mas certamente não é necessário ser mais explícita.
- É sim, se a senhora quer continuar esta conversa.
Houve uma época em que as pessoas tinham medo de que alguém revelasse algum segredos delas. Hoje em dia, elas têm medo de que alguém mencione aquilo que todos sabem.
É isto que quero, pensou agora, ao constatar que sorria ao ver Francisco no meio da multidão: esta estranha sensação de expectativa, que mistura curiosidade, bem-estar e esperança.
(discurso do dinheiro - Francisco D'Anconia - ótimo!)
Então o senhor acha que o dinheiro é a origem de todo o mal? O senhor já se perguntou qual a origem do dinheiro? Ele é um instrumento de troca, que só pode existir quando há bens produzidos e homens capazes de produzí-los [...] O dinheiro não é o instrumento dos pidões, que recorrem às lágrimas para pedir produtos, nem dos saqueadores, que os levam às forças [...] Não são os pidões nem os saqueadores que dão ao dinheiro o seu valor. Nem um oceano de lágrimas nem todas as armas do mundo podem transformar aqueles pedaços de papel no seu bolso no pão que você precisa para sobreviver [...] O dinheiro é feito - antes de poder ser embolsado pelos pidões e pelos saqueadores - pelo esforço de todo homem honesto [...] aquele que sabe que não pode consumir mais do que produz. Comerciar por meio do dinheiro é o código dos homens de boa vontade. O dinheiro se baseia no axioma de que todo homem é proprietário da sua mente e de seu trabalho [...] O dinheiro permite que você obtenha em troca dos seus produtos e de seu trabalho aquilo que seus produtos e seu trabalho valem para os homens que o adquirem, nada mais do que isso [...] é preciso oferecer valores, não dores [...] o vínculo comum entre os homens não é a troca de sofrimento, mas a troca de bens. O dinheiro exige que o senhor venda não a sua fraqueza à estupidez humana, mas o seu talento à razão humana [...]
quando os homens vivem do comércio - com a razão e não à força, como árbitro ao qual não se pode mais apelar -, é o melhor produto que sai vencendo, o melhor desempenho, o homem de melhor juízo e maior capacidade - e o grau de produtividade de um homem é o grau de sua recompensa [...] é isso que o senhor considera mau? [...]
Mas o dinheiro é só um instrumento [...] ele lhe dá meios de satisfazer seus desejos, mas não lhe cria os desejos. O dinheiro é o flagelo dos homens que tentam inverter a lei da casualidade - aqueles que tentam substituir a mente pelo sequestro dos produtos da mente. O dinheiro não compra felicidade para o homem que não sabe o que quer, não lhe dá um código de valores se não tem conhecimento a respeito de valores, não lhe dá um objetivo se ele não escolhe uma meta. O dinheiro não compra inteligência para o estúpido, nem admiração para o covarde, nem respeito para o incompetente. O homem que tenta comprar o cérebro de quem lhe é superior para serví-lo, usando dinheiro para substituir o seu juízo, termina vítima dos que lhe são inferiores. Os homens inteligentes o abandonam, mas os trapaceiros e vigaristas correm atraídos por uma lei que ele ainda não descobriu: o homem não pode ser menor do que o dinheiro que ele possui [...] se um herdeiro esta à altura de sua herança, ela o serve; caso o contrário, ela o destrói [...] não pense que ela deveria ser distribuída - criar 50 parasitas em lugar de um [...]
O veredicto que o senhor dá a fonte do seu sustento é aquele que dá à sua própria vida. Se a fonte é corrupta, o senhor condena a própria existência. O dinheiro provém da fraude? Da exploração dos vícios e da estupidez humanos? O senhor o obteve servindo aos insensatos, na esperança de que lhe dessem mais do que sua capacidade merece? Baixando seus padrões de exigência? Fazendo um trabalho que o senhor despreza para compradores que não respeita? Nesse caso, o seu dinheiro não lhe dará um momento sequer de felicidade. Todas as coisas que adquirir serão não um tributo ao senhor, mas uma acusação; não uma realização, mas um momento de vergonha. Então o senhor dirá que o dinheiro é mau. Mau porque ele não substitui o seu amor-próprio? Mau porque ele não permite que o senhor aproveite e goze sua depravação? [...] O dinheiro é produto da virtude, mas não dá virtude nem redime vícios. Ele não lhe dá o que o senhor merece, nem em termos materiais nem espirituais [...]
O homem que venderia a própria alma por um tostão é o que mais alto brada que odeia o dinheiro - e ele tem bons motivos para odiá-lo. Os que amam o dinheiro estão dispostos a trabalhar para ganhá-lo. Eles sabem que são capazes de merecê-lo. Eis uma boa pista para saber o caráter dos homens: aquele que amaldiçoa o dinheiro o obtém de modo desonroso; aquele que o respeita, o ganha honestamente. Fuja do homem que diz que o dinheiro é mau. Essa afirmativa é o estigma que identifica o saqueador [...] Enquanto os homens viverem juntos na Terra e precisarem de um meio para negociar, se abandonarem o dinheiro, o único substituto que encontrarão será o cano do fuzil [...]
Quando há comércio não por consentimento, mas por compulsão, quando para produzir é necessário pedir permissão para homens que nada produzem - quando o dinheiro flui para aqueles que não vendem produtos, mas têm influência -, quando a corrupção é recompensada e a honestidade vira um sacrifício -, pode ter certeza que a sociedade está condenada [...]
no decorrer de séculos de estagnação e fome, os homens exaltavam os saqueadores, como aristocratas da espada aristocratas de estirpe, aristocratas da tribuna, e desprezavam os produtores, como escravos, mercadores, lojistas... industriais [...]
As mentes apodrecidas que afirmam não ver diferença entre o poder do dólar e o poder do açoite merecem aprender a diferença na própria pele, que, creio eu, é o que vai acabar acontecendo [...] Quando o dinheiro deixa de ser o instrumento por meio do qual os homens lidam uns com os outros, então os homens se tornam os instrumentos dos homens. Sangue, açoites, armas - ou dólares. Façam a sua escolha.
Eles não estão dispostos a suportar nada. O senhor está disposto a suportar qualquer coisa. Ele vivem fugindo às responsabilidades. O senhor vive assumindo-as. Mas não vê que o erro essencial é o mesmo?
Sei que você tem força o suficiente para não se deixar magoar, mas eu não tenho o direito de abusar dessa força.
Não aceito sacrifícios nem os faço [...] Se o prazer de um tem que ser pago pelo sofrimento do outro, então é melhor que não haja comércio nenhum. Uma transação comercial na qual um sai lucrando e o outro sai perdendo é uma fraude. Você não faz isso em seu trabalho, Hank. Não o faça na sua vida.
Sabe qual é a sua única culpa? Apesar de ter tanta capacidade para ter prazer, você nunca se permitiu isso. Sempre rejeitou o próprio prazer com muita facilidade.
- Não sei por quê - disse ele. - Mas olho para as pessoas e tenho a impressão que elas são feitas só de dor. Ele, não. Você, não.
É impossível governar homens honestos. O único poder que qualquer governo tem é o de reprimir os criminosos. Bem, então, se não temos criminosos o bastante, o jeito é criá-los. E fazer leis que proíbem tanta coisa que se torna impossível viver sem violar alguma. Quem vai querer um país cheio de cidadãos que respeitam as leis? O que se vai ganhar com isso? Mas basta criar leis que não podem ser cumpridas nem objetivamente interpretadas, leis que é impossível fazer com que sejam cumpridas a rigor, e pronto! Temos um país repleto de pessoas que violam a lei, então é só faturar em cima dos culpados.
- Sr. Danagger, se eu lhe implorasse de joelhos, se eu encontrasse palavras que ainda não encontrei... haveria... há alguma posssibilidade de convencê-lo a mudar de idéia?
- Não.
Por que desperdiçamos isso? Por que nós dois fomos condenados a passar as horas que não estávamos no escritório como exilados entre estranhos antipáticos que nos fizeram abandonar toda a vontade de descansar, de desfrutar as amizades, de ouvir vozes humanas? Será que eu poderia agora recuperar uma hora que fosse das que gastei conversando com meu irmão Philip e dá-la a Ken Danagger? Quem foi que nos impôs a obrigação de aceitar como única recompensa por nosso trabalho a tortura de fingir amar aqueles que só despertam em nós o desprezo?
Toda a sua vida o senhor vem sendo denunciado não pelos seus defeitos, mas pelas suas maiores virtudes. Vem sendo odiado, não por seus erros, mas por suas realizações. Escarnecido por todas aquelas qualidades de caráter das quais mais se orgulha. Chamado de egoísta por ter coragem de agir com base no seu próprio julgamento e assumir sozinho a responsabilidade pela sua própria vida. Chamado de arrogante por ter uma mente independente. Chamado de cruel por possuir uma integridade inflexível. Chamado de antissocial por ter uma visão que o levou a descortinar novos caminhos. Chamado de implacável por ter força e auto-disciplina para atingir seus objetivos. Chamado de ganancioso por ter o poder magnífico de criar riquezas.
O senhor é culpado de um grande pecado, Sr. Rearden, muito mais culpado do que eles dizem, só que não do jeito que eles dizem. A pior culpa é aceitar uma culpa imerecida, e é isso o que vem fazendo a vida toda [...] Mais vil do que assassinar um homem é lhe oferecer suicídio como ato virtuoso. Mais vil que lançar um homem na pira de holocausto é exigir que ele pule para dentro dela, por livre e espontânea vontade, depois de tê-la ele próprio construído.
Ao ritmo de seu corpo, com o calor fortíssimo em seu rosto e a noite de inverno sobre seus ombros, Rearden viu de repente que esta era a essência simples do universo: a recusa imediata a se submeter ao desastre, o impulso irresistível de combatê-lo, a sensação triunfante de ser capaz de vencer [...] de vez em quando entrevia um rosto cheio de suor e era o rosto mais feliz que ele jamais vira.
Contar com a virtude dele e utilizá-la como instrumento de tortura, praticar chantagem utilizando a generosidade da vítima como o único método de extorsão, aceitar a boa vontade de um homem e transformá-la no instrumento de destruição desse próprio homem... Rearden permanecia imóvel, pensando na fórmula de uma maldade tão monstruosa que ele só conseguia identificar, sem poder identificar que fosse possível.
- Se você não mostrar que está disposto a ceder e cooperar, não vai ter saída. Você tem dificultado muito as coisas.
- Não. Tenho facilitado demais.
Talvez eu lhe deva uma explicação, se lhe passei uma idéia errada. Nunca tentei chamar a atenção para o fato de que você vive da minha caridade. Eu achava que cabia a você ter isso em mente. Achava que qualquer ser humano que aceita a ajuda de outro sabe que a boa vontade é a única coisa que motiva aquele que ajuda, e que o pagamento que ele lhe deve é a boa vontade. Mas vejo que eu estava enganado. Você recebia a sua comida sem fazer nada para merecê-la e concluiu que também não era preciso fazer nada para merecer afeição. Você concluiu que eu era a pessoa no mundo em quem podia cuspir com a maior tranquilidade, exatamente porque eu tinha esse poder sobre você. Você concluiu que eu não ia querer chamar a atenção para esse fato com medo de ferir a sua sensibilidade. Então vamos encarar a realidade: você vive de caridade, e há muito tempo você já esgotou minha paciência. Todo e qualquer afeto que algum dia eu já tenha sentido por você acabou. Não tenho o menor interesse por você, pelo seu futuro, nada. Não tenho nenhum motivo para querer alimentar você. Se for embora daqui, para mim não irá fazer a menor diferença se você vai morrer de fome ou não. Pois essa é a sua posição, e espero que você tenha isso em mente se quiser continuar morando aqui.
- Não vou ajudá-los a fingir que eu tenho alguma chance. Não vou ajudá-los a manter uma aparência de justiça quando os meus direitos não estão sendo reconhecidos. Não vou ajudá-los a manter uma aparência de racionalidade entrando numa discussão em que o argumento final é uma arma de fogo. Não vou ajudá-los a fingir que o que está acontecendo é um ato de justiça.
- Mas a lei o obriga a apresentar a sua defesa!
Houve uma gargalhada no fundo da platéia.
- É essa a falha da sua teoria, senhores - disse Rearden, sério -, e não vou ajudá-los a contorná-la. Se optaram por tratar as pessoas por meio da força, que o façam [...] Se acreditarem que têm o direito de me forçar, usem suas armas abertamente. Não vou ajudá-los a disfarçar a natureza de seus atos.
(sobre amor - Francisco D'Anconia - muito bom!)
- O senhor acha que eu tenho um terrível complexo de inferioridade?
- Não, absolutamente não!
- Só esse tipo de homem passa a vida correndo atrás de mulheres [...] Pois o homem que sente desprezo por si mesmo tenta obter amor-próprio por meio de aventuras sexuais - o que é inútil, porque o sexo não é a causa, e sim o efeito e uma manifestação da imagem que um homem faz do próprio valor [...] O amor é cego, dizem. O sexo é imune à razão [...]. Mas, na verdade, a escolha sexual de um homem é o resultado e o somatório de suas convicções fundamentais. Diga-me o que um homem acha sexualmente atraente que lhe direi qual é toda a sua filosofia de vida. Mostre-me a mulher com que ele dorme e lhe direi a imagem que ele faz de si próprio [...]
o ato sexual é [...] um ato que força o homem a ficar nu tanto no corpo quanto no espírito e a aceitar seu ego verdadeiro como padrão de valor [...] O homem que está convicto do seu próprio valor e dele se orgulha há de querer o tipo mais elevado de mulher possível, a mulher que ele admira, a mais forte, a mais difícil de conquistar, porque somente a posse de uma heroína lhe dará a consciência de ter realizado algo, não apenas de ter possuído uma vagabunda desprovida de inteligência [...] Ele não tenta ganhar seu valor, e sim exprimí-lo. Não há conflitos entre os padrões da sua mente e os desejos de seu corpo. Mas o homem que está convencido de que não tem valor será atraído por uma mulher que despreza, porque ela refletirá o seu próprio eu secreto e lhe proporcionará uma fuga daquela realidade objetiva em que ele é uma fraude [...] Observe o caos que é a vida sexual da maioria dos homens e repare no amontoado de contradições que constitui a sua filosofia moral. Uma deriva da outra. O amor é nossa resposta aos nossos valores mais elevados e não pode ser outra coisa. O homem que corrompe seus próprios valores e a visão que tem da sua existência [...] se parte em dois. Seu corpo não lhe obedecerá, não reagirá da forma apropriada e o tornará impotente em relação à mulher que ele afirma amar, impelindo-o para a prostituta mais abjeta que puder encontrar [...] Então, vocifera que seu corpo tem desejo abjetos que sua mente não consegue dominar, que o sexo é pecado, que o verdadeiro amor é uma emoção puramente espiritual. E então ele não entende por que o amor só lhe provoca tédio, e a sexualidade, apenas vergonha [...]
observe que a maioria das pessoas é uma criatura partida em duas, que vive pulando desesperadamente de um pólo para outro. Um dos tipos é o homem que despreza o dinheiro, as fábricas, os arranha-céus e seu próprio corpo. [...] geme de desespero porque não consegue sentir nada pelas mulheres que respeita, porém sente-se aprisionado por uma paixão irresistível dirigida a uma vagabunda que encontrou na sarjeta [...]
O outro tipo é o que chamam de prático, que despreza os princípios, as abstrações, a arte, a filosofia e a própria mente. Ele tem como único objetivo na vida a aquisição de objetos materiais e ri quando lhe falam da necessidade de considerar se objetivo ou sua fonte. Ele acha que tais coisas devem lhe proporcionar prazer e não entende por que quanto mais acumula, menos prazer sente. Esse é o homem que vive correndo atrás de mulheres. Observe a tripla fraude que comete contra si próprio. Ele não reconhece sua necessidade de amor-próprio, pois ri do conceito de valor moral. No entanto, sente o profundo desprezo por si próprio que caracteriza aqueles que acham que não passam de um pedaço de carne. [...] Assim, ele tenta, realizando os gestos que constituem o efeito, adquirir o que deveria ser a causa. Ele tenta afirmar o seu próprio valor por intermédio das mulheres que se entregam a ele e esquece que as mulheres que escolhe não têm caráter, nem julgamento, nem padrões de valores. Ele diz a si próprio que tudo o que quer é o prazer físico, porém observe que ele se cansa de uma mulher em uma semana ou uma noite, que despreza prostitutas profissionais e adora imaginar que está seduzindo moças direitas que abrem uma exceção para ele. É a sensação de realização que ele busca e jamais encontra. Que glória pode haver em conquistar um corpo desprovido de mente? Pois é esse o homem que vive correndo atrás de mulheres [...]
Essas mulheres estão atrás da mesma coisa que os homens que vivem andando atrás de um rabo de saia: só querem aumentar seu próprio valor por meio do número e da fama dos homens que conquistam. Só que são ainda mais falsas, porque o valor que elas buscam nem é o ato em si, mas a impressão que vão causar nas outras mulheres, bem como a inveja que vão provocar [...]
Uma cidade é a forma concretizada da coragem humana [...] A coragem de dizer não “a meu ver”, mas “o fato é o seguinte”, e apostar sua própria vida no seu julgamentlo. Você não está sozinha. Esses homens existem. Eles sempre existiram. Houve um tempo em que os seres humanos se acocoravam em cavernas, à mercê de todas as pestes e tempestades [...] - Apontou para a cidade. [...] - Pois essa é a prova que existe outro tipo de homem.
Era um terror esquivo, como o sentimento de culpa: não o medo que é fruto do conhecimento, mas da recusa em compreender.
Queria que ela entendesse, mas não que entendesse inteiramente, explicitamente, até a raiz - já que a essência da linguagem moderna, que ele aprendera a falar com perfeição, era jamais deixar que ele próprio ou os outros entendessem nada até a raiz.
Sejam quais forem os direitos que você tem sobre mim - disse ele -, nenhum ser humano pode ter sobre outro direitos que exijam que este este anule sua própria existência.
Embora detivesse um poder oficial imenso, vivia tramando para aumentá-lo, porque era isso qie os que o haviam empurrando para o cargo esperavam dele. Tinha a astúcia dos poucos inteligentes e a energia frenética dos preguiçosos. O único segredo de seu sucesso na vida era o fato de que ele era um produto do acaso, estava consciente disso e não aspiravam a mais nada.
O tio Julius não gostava de gente muito inteligente. Também não gostava de ter que administrar suas finanças, então atribuiu a Mouch a responsabilidade por isso. Quando este terminou a faculdade, já não havia mais dinheiro para administrar. O tio Julius pôs a culpa na astúcia de Mouch e o acusou de ser um patife sem escrúpulos. Na verdade, porém, este não tinha tramado nada - ele próprio não fazia idéia do que acontecera com o dinheiro [...]
Daí em diante, as pessoas foram ajudando Mouch a subir pelo mesmo motivo que levara seu tio Julius a favorecê-lo: eram indivíduos que achavam que a mediocridade é confiável [...] Com base na situação do momento, tinham concluído que Mouch era um homem de grande capacidade e argúcia, já que milhões de pessoas aspiravam ao poder mas só ele conseguira obtê-lo.
- Não vão criar problema nenhum. - disse Kinnan. - O tipo de intelectuais que são seus amigos são os primeiros a gritar quando se sentem seguros, e os primeiros a calar a boca quando veêm sinal de perigo. Passam anos cuspindo na mão do homem que lhes dá de comer e depois lambem a mão do que lhes dá um tabefe [...]
Pode-se se preocupar com qualquer outro tipo de pessoa, menos com os intelectuais modernos: eles engolem qualquer coisa. Eu me preocupa mais com o mais baixo estivador do sindicato dos marítimos: esse pode até de repente lembrar que é um ser humano, e aí não vou mais conseguir fazer que ele ande na linha [...] Não é preciso se preocupar com os intelectuais, Wesley. Basta botar alguns deles na folha de pagamento do governo e mandá-los pregar exatamente as coisas que o sr. Kinnan mencionou: a idéia de que a culpa é das vítimas. Dê-lhes salários razoáveis e título grandiloquentes que eles se esquecem [...].
[...] só se pode desarmar um homem por meio da culpa. Por intermédio daquilo que ele mesmo aceita como culpa [...] ele será capaz de suportar qualquer infelicidade, achando que é merecida. Se não há bastante culpa no mundo, precisamos criá-la. Se ensinamos a um homem que é errado olhar para as flores e ele acredita em nós e depois olha para as flores, podemos fazer o que quisermos com ele. Ele não vai se defender. Vai achar que é bem-feito. Não vai lutar. Mas o perigo é o homem que obedece os seus próprios padrões morais. Cuidado com o homem de consciência limpa. É esse que vai nos derrotar.
- [...] como é que a emergência vai acabar se tudo vai continuar como está?
- Não seja teórico - respondeu Mouch, impaciente. - Temos qjue encarar a situação do momento. Não se preocupe com detalhes menores, desde que as linhas mestras de nossa política estejam definidas. Nós teremos o poder necessário para resolver qualquer problema e responder a qualquer pergunta.
Por pior que tivesse sido a noite anterior, todas as manhas Dagny sentia uma energia em seu corpo e uma fome de atividade em sua mente - porque estava começando mais um dia, e era um dia na vida dela [...]
Ela sentou-se à mesa, sorrindo, desafiando o que havia de desagradável em seu trabalho. Detestava aqueles relatórios que precisava terminar de ler, mas era o seu trabalho, era manhã.
[...] a fuga à dor e não a busca pelo prazer como único incentivo para o esforço é a única recompensa para o trabalho [...] de tal modo que o homem que nada teria a oferecer nada teria a temer [...], de tal modo que aquilo que a pessoa tinha de melhor se tornava o instrumento de tortura que a supliciava [...].
[...] Faz o possível para que nunca ninguém possa atribuir uma decisão a ele, para que ninguém possa culpá-lo por nada que dê errado. O objetivo dele não é administrar uma rede ferroviária, e sim se manter no cargo. Ele não quer lidar com trens, quer agradar Jim. Pouco lhe importa se os trens estão andando ou não, desde que cause uma boa impressão no Jim e no pessoal de Washington.
Não posso computar todo o dinheiro que já foi arrancado do senhor, em impostos disfarçados, em regulamentos, em tempo desperdiçado, em esforço em vão, em energia gasta para vencer obstáculos artificiais.
[...] há anos, no ensino fundamental, no médio e na faculdade, Chalmers aprendera que o homem não vive e não precisa viver com base na razão.
Fechou os olhos e ficou imóvel, sentindo os raios de sol no corpo. Era isto a realização, pensou ela: gozar aquele momento, não deixar que nenhuma dor lembrada amortecesse sua capacidade de sentir o que sentia agora. Enquanto pudesse preservar aquele sentimento, teria combustível para seguir em frente.
Dagny, jamais podemos perder as coisas que são motivo de nossa existência.
Não posso nem existir sem trabalhar, nem trabalhar como uma escrava. Sempre achei que todas as formas de lutar eram válidas - menos a renúncia [...] Se abandonarmos tudo, estamos nos rendendo; se ficarmos, também é uma rendição. Não sei mais o que é certo.
Dagny, nós, a quem os assassinos do espírito humano chamam de “materialistas”, somos, os únicos que sabemos como é pequeno o valor dos objetos materiais enquanto tais, porque [...] podemos nos permitir abrir mão deles [...] Você não depende de nenhuma posse material, elas é que dependem de você. É você quem as cria [...] sempre poderá produzir. Mas os saqueadores [...] estão sempre em estado de necessidade desesperada e congênita, sempre à mercê da matéria cega. [...] Eles precisam de ferrovias, fábricas, minas e motores que não sabem fazer nem administrar.
- Não se preocupe comigo, Hank. Amanhã já estarei em forma.
- Não me preocupo com você, querida. Nos vemos hoje à noite.
[...] é meu amor por você que me impele, meu amor e minha esperança de ser merecedora de você no que dia em que eu o encarar face a face.
Não posso aceitar o que eles estão aceitando [...] é a coisa que nós achávamos terrível, acreditar que os desastres são o destino natural do homem, que o destino deve ser suportado, e não combatido. Não posso aceitar a submissão. Não posso aceitar a impotência. Não posso aceitar a renúncia.
Ah, o que há com todos nós? Por que só há sofrimento para todos? Por que sofremos tanto? A vida não deve ser assim. Sempre achei que a felicidade era nosso destino natural. O que estamos fazendo? O que perdemos? [...] Era tão bom viver, tantas oportunidades [...]
Há sempre um lugar para a gente ir. Só para não ficar parado [...] acho que é pecado ficar sentado desperdiçando a vida, sem tentar fazer alguma coisa.
(parábola de fábrica)
[...] O plano era o seguinte: cada um trabalhava conforme sua capacidade e recebia conforme sua necessidade. [...]
Aprovamos o tal plano numa assembléia [...] Ninguém sabia como o plano ia funcionar, mas todo mundo achava que o outro sabia. E quem tinha dúvida se sentia culpado e não dizia nada, porque, do jeito que os herdeiros falavam, quem fosse contra era desumano e assassino de criancinhas. Disseram que iam concretizar um nobre ideal. Como é que a gente podia saber? Não era isso que a gente ouvia a vida toda dos pais, professores e pastores, em todos os jornais, filmes e discursos políticos? Não diziam que isso era o certo e o justo? [...] Capacidade de quem? Necessidade de quem, quem tem prioridade? [...] Tudo era resolvido na base da votação [...] Bastou a primeira para a gente descobrir que todo mundo tinha virado mendigo [...] tinha que pedir em público para que atendessem as suas necessidades, como qualquer parasita, enumerando todos os seus problemas, até os remendos da calça [...] O jeito era chorar miséria, porque era a sua miséria, e não o seu trabalho, que agora era a moeda corrente de lá [...] A senhora imagina o que aconteceu, o tipo de homem que ficava calado, com vergonha, e que tipo de homem levava a melhor? [...] Começamos a esconder a nossa capacidade, a trabalhar mais devagar [...] A vida inteira nos ensinaram que os lucros e a competição tinham um efeito nefasto, que era terrível um competir com o outro [...] pois deviam ver o que acontecia quando um competia com o outro para ver quem era o pior. Não há maneira melhor de destruir um homem do que obrigá-lo a tentar não fazer o melhor do que é capaz [...] mata mais do que a bebida, a vadiagem, a vida de crime [...]
No começo, éramos pessoas bem honestas, e só havia uns poucos aproveitadores. Éramos competentes, nos orgulhávamos do nosso trabalho [...] Um ano depois da implantação do plano, não havia mais nenhum homem honesto entre nós [...] A questão não foi que o plano estimulasse uns poucos corruptos, e sim que ele corrompia pessoas honestas [...] Queriam que trabalhássemos em nome do quê? Do amor por nossos irmãos? Que irmãos? Os parasitas, os sanguessugas que víamos ao redor? [...] Amor fraternal? Foi então que aprendemos, pela primeira vez na vida, a odiar nossos irmãos.
Dagny percebeu que caminha com um esforço cada vez maior, como se lutasse contra uma resistência que não era pressão, e sim uma sucção [...] duas figuras solitárias lutando [...] contra a inexistência.


























2 comentários:
Estou querendo ler este livro há tempos, mas só tinha uma tradução horrível dos anos 70 aqui no Brasil. Estava quase para comprar em inglês, mas com esta tradução nova acho que vai valer a pena. Fiz as compras do mês, e junto com outros 4 livros acabei de comprar o box na Saraiva. Ansioso para que chegue. Estou evitando ler os teus destaques para ter a experiência completa, mas tuas postagens me incentivaram a ir atrás dele. Espero que outras pessoas também o façam, A Nascente é genial, vamos agora ao Atlas!
|O livro (box com 3 volumes), A REVOLTA DE ATLAS, DE AYN RAND É UMA OBRA PRIMA que inspira uma excepcional maneira de ver a vida e PROGREDIR de verdade. Liberta o indivíduo das falsas crenças, das superstições, dos medos e das mentiras que nos fazem engolir desde que nascemos e que são as nossas grandes prisões e vampiros. Ayn Rand , nesta obra A Revolta de Atlas, é uma autora inteligente, lúcida e clara. Comprei os três volumes e li com atenção e valeu a pena. A obra é bastante atual, pois aborda assuntos perenes da alma humana.Tua indicação foi importante. Grato por isso.
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